Laboratório (Universidade de Aveiro).

Como as taxas de sucesso globais são muito baixas, os investigadores gastam meses a detalhar projetos que, estatisticamente, têm poucas hipóteses de obter financiamento.

Paulo Jorge Ferreira *

A promulgação do Decreto-Lei n.° 132/2025 formaliza a criação da Agência para a Investigação e Inovação (AI2), que assumirá funções que antes estavam a cargo da FCT e da ANI.

A mera reorganização administrativa não garante o sucesso da reforma. A AI2 tem de provar ser capaz de melhorar os processos que ditam o dia a dia de cientistas e empresas. Para evitar que nasça como um gigante burocrático com duas cabeças, uma na área governativa da ciência e outra na da economia, a agência precisa de adotar paradigmas mais ágeis e eficientes. A avaliação e financiamento da ciência é um exemplo do que tem de mudar.

Atualmente, um investigador que queira apresentar uma candidatura tem de redigir uma proposta detalhada, e instruí-la com currículos, equipa, parceiros, metas, orçamentos e cronogramas.

Como as taxas de sucesso globais são muito baixas, os investigadores gastam meses a detalhar projetos que, estatisticamente, têm poucas hipóteses de obter financiamento. A carga avaliativa imposta aos painéis de avaliação arrasta as avaliações, aumentando o seu custo e a probabilidade de erro. A complexidade do processo dificulta a colaboração entre instituições e afasta o tecido empresarial, avesso a burocracias pesadas sem retorno previsível.

Todo o processo é um desperdício de capital intelectual. O custo de construir uma boa proposta e falhar é elevadíssimo.

Contudo, há uma alternativa simples: dividir a avaliação em duas fases. Triagem primeiro, detalhes depois.

A primeira fase exigiria apenas uma curta nota, possivelmente anonimizada, focada na excelência, novidade e impacto da ideia. A barreira de entrada seria menor, particularmente para jovens investigadores. O custo de falhar seria muito menor.

Só os autores das candidaturas que passassem à segunda fase teriam de desenvolver uma proposta completa. Mas, para este grupo restrito, a probabilidade de sucesso seria muito maior, transformando a submissão num investimento calculado e não numa aposta cega.

Este modelo pode reduzir significativamente o tempo desperdiçado pela comunidade científica na escrita de candidaturas, melhorando simultaneamente a qualidade e consistência da revisão por parte dos avaliadores.

Para a AI2, que tem a difícil missão de fundir a cultura académica (“curiosity-driven”) com a empresarial (“market-led”), este modelo é ideal. Permite às empresas testar o alinhamento com os desafios estratégicos que se colocam a Portugal sem colocar departamentos inteiros a afinar candidaturas complexas, e devolve aos cientistas o tempo para fazerem ciência.

Adotar a avaliação em duas fases vai além da eficiência administrativa: é uma afirmação de respeito pelo tempo e pelo talento nacionais e um sinal claro, por parte da agência, da importância de adotar novos instrumentos de execução.

Vale a pena pensar nisso.

* Reitor da Universidade de Aveiro. Artigo publicado no JN e no site UA.pt.

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