
quanto custava, há 30 anos, um vinho famoso? Que marcas se vendiam? Das que sobreviveram, quais as que mais valorizaram? No decorrer de uma limpeza das prateleiras lá de casa, a descoberta de um conjunto de catálogos de feiras de vinho deu resposta a algumas destas questões e trouxe-me de regresso à idade de ouro do negócio do vinho em Portugal.
Por Luís Lopes *
Antes de mais, importa contextualizar. Há mais de três décadas, as feiras de vinho dos hipermercados nada tinham a ver com as actuais. Hoje, são uma concentração de campanhas e promoções. Naquela época, eram uma oportunidade única para um consumidor, cada vez mais interessado e interessante (em termos de poder de compra), aceder, em qualquer ponto do país, a vinhos consagrados, vinhos que só se vendiam em raras lojas de Lisboa e Porto. A importância destas feiras era de tal ordem, que os grandes produtores esperavam por elas para lançar as novas colheitas. E os compradores dos hipermercados corriam o país, batendo à porta dos produtores mais pequenos e reputados, pedindo o especial favor de lhes ser vendido o vinho mais raro e mais caro. A feira do Pingo Doce foi pioneira e líder nesse conceito, apresentando os vinhos em catálogos luxuosos, que eram, depois, distribuídos nas lojas e encartados no jornal Expresso do fim de semana anterior à feira. Os catálogos, autênticas revistas especializadas, com informação didáctica, reportagens, etc., eram avidamente lidos e pesquisados pelos apreciadores, que irrompiam pelas lojas com o caderno debaixo do braço, em busca dos vinhos que tinham anotado.
Apenas dois exemplos, para mostrar o impacto da coisa: marcas como Ferreirinha Reserva Especial, Quinta do Côtto Grande Escolha, Duas Quintas Reserva, Cartuxa Garrafeira (sim, existiu um Cartuxa Garrafeira!), Mouchão ou Luís Pato Vinhas Velhas eram das que primeiro esgotavam nas prateleiras; e a vasta campanha de marketing televisiva da edição de 1995 foi protagonizada por um rapaz chamado Dirk Niepoort. Outros tempos, como se percebe.
Talvez um dia volte a este tema das feiras, mas, hoje, centro-me no que aqui me trouxe: os preços de antigamente e a maior ou menor valorização das marcas. À minha frente, tenho os catálogos das Feiras Pinto Doce entre 1991 e 2004 (este último, com a curiosidade de ter os preços em euros e escudos, não fosse alguém baralhar-se nas contas). Apontando a um número redondo, recuemos então 30 anos, à feira de 1996.
O exercício que vos proponho, nada tem de científico, é apenas lúdico. Trata-se de comparar quanto custava em 1996 e quanto custa hoje um determinado vinho; e reflectir sobre isso, tirando as ilações possíveis
Comparar preços com um intervalo de três décadas é sempre muito pouco rigoroso. Para calcular o efeito da inflação com a conversão de escudos para euros, existe uma excelente ferramenta, o Índice de Preços no Consumidor (IPC), disponibilizado no site do Instituto Nacional de Estatística. Há que ter o cuidado de escolher a opção que exclui o mercado imobiliário (a valorização dos imóveis distorce tudo o resto), mas a fórmula que calcula entre anos (e meses!) é muito boa.
No entanto, quando se aborda um sector tão específico quanto o do vinho, a inflação média é um dado enganador. É que, em 30 anos, os custos de produção nesta vertente agroindustrial subiram muito mais do que a inflação, começando pelos salários agrícolas (que dispararam face à escassez de mão de obra), e continuando nos produtos para a vinha, gasóleo, garrafas, rolhas, transportes, distribuição, marketing, etc. E, não sendo eu economista (muito, muito longe disso!), acredito que os naturais ganhos de eficiência trazidos pela gestão moderna e pela tecnologia estão muito longe de compensar o enorme aumento dos custos de produzir e vender uma garrafa de vinho.
* Continuar para ler artigo completo no site da revista Grandes Escolhas.
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