Fábrica da Vista Alegre (Portugal).

Trabalho em investigação e desenvolvimento e, por isso, habituei-me a olhar para os dados antes de tirar conclusões. Quando olho hoje para os números da cerâmica portuguesa, há uma primeira conclusão difícil de ignorar: estamos perante um setor forte, competitivo e com uma presença internacional que poucos setores da nossa economia conseguem reivindicar.

Por Cátia Carreira *

Falamos de cerca de 1 267 empresas e mais de 18 mil trabalhadores, que geram perto de 1,5 mil milhões de euros por ano. Em 2024, exportámos 875,9 milhões de euros de produtos cerâmicos para 164 mercados, com um saldo comercial positivo superior a 573 milhões de euros. Portugal é hoje o maior exportador da União Europeia de cerâmica de mesa e uso doméstico e o segundo maior exportador mundial. Os dados preliminares de 2025 apontam para um novo máximo, acima dos 880 milhões de euros.

Mas os números, por si só, não garantem o futuro.

Estive há dias em Castellón, no IGNITE 2026, onde especialistas de dezoito países se reuniram para discutir o futuro da cerâmica. Ouvi falar de descarbonização, automação e inteligência artificial aplicada à produção e reconheci muitos dos temas em que estamos a trabalhar em Portugal. Voltei com uma confirmação importante: as áreas de inovação que estão hoje no centro da discussão internacional são precisamente aquelas em que a indústria portuguesa e as entidades que com ela trabalham estão a desenvolver conhecimento e soluções. Não estamos a assistir à transformação de fora. Estamos a fazer parte dela.

Voltei também com outra certeza: à medida que os desafios se tornam mais complexos, aumenta a importância da capacidade de trabalhar em conjunto para encontrar respostas.

É aqui que deixo de me focar apenas nos resultados que alcançámos e passo a pensar no que precisamos de fazer para manter esta posição amanhã.

A transformação que temos pela frente não é apenas tecnológica. É também uma transformação na forma como as empresas produzem, medem, organizam e partilham informação.

O Passaporte Digital de Produto é um dos exemplos mais visíveis desta mudança. A indústria terá de ser capaz de transformar informação que hoje está dispersa – sobre matérias-primas, processos, consumo de recursos, desempenho e fim de vida – em dados estruturados, fiáveis e rastreáveis. Não é apenas uma nova camada administrativa. É uma mudança na forma como as empresas terão de conhecer, gerir e utilizar a informação sobre os seus próprios produtos e processos.

E terá consequências concretas para a competitividade. Quem tiver dados disponíveis, fiáveis e interoperáveis estará em melhores condições para demonstrar conformidade, responder às exigências dos clientes e aceder aos mercados. Preparar esta transição não deve ser visto apenas como uma obrigação futura: é também uma oportunidade para transformar informação em conhecimento e conhecimento em vantagem competitiva.

Foi precisamente para começar a responder a desafios desta natureza que nasceu a Agenda ECP — Ecocerâmica e Cristalaria de Portugal. Reunimos trinta entidades, entre empresas, centros tecnológicos e universidades, para trabalhar em conjunto sobre desafios que dificilmente poderiam ser resolvidos de forma isolada. Ao longo da Agenda, foram desenvolvidas plataformas digitais para gerir ativos de produção, otimizar processos de fábrica, disponibilizar objetos digitais dos nossos produtos a arquitetos e projetistas e transformar resíduos industriais em novos recursos.

Mas, olhando para trás, considero que um dos resultados mais relevantes da Agenda vai além das soluções concretas desenvolvidas em cada projeto. O ECP criou um espaço de colaboração entre entidades que, apesar de partilharem muitos dos mesmos desafios, nem sempre tinham oportunidade ou contexto para os discutir e enfrentar em conjunto. Empresas, centros tecnológicos e universidades trabalharam lado a lado, partilharam conhecimento, testaram soluções e aprenderam uns com os outros.

E isto é particularmente relevante num setor em que muitas empresas competem nos mesmos mercados, mas enfrentam simultaneamente desafios comuns – tecnológicos, energéticos, ambientais e digitais. O ECP mostrou que a concorrência e a cooperação não são conceitos incompatíveis. Pelo contrário: há problemas cuja dimensão ultrapassa cada empresa individualmente e para os quais a construção de conhecimento coletivo pode fazer a diferença.

Não sei prever mercados, nem é essa a minha função. Mas sei ler dados. E os dados dizem duas coisas ao mesmo tempo: que a cerâmica portuguesa tem hoje uma posição internacional que poucos setores da nossa economia conseguem reivindicar; e que manter essa posição dependerá da nossa capacidade para continuar a evoluir, inovar e responder a desafios que não são estáticos.

Organizar informação sobre energia, materiais e processos com o mesmo rigor com que organizamos um ensaio de laboratório será parte desse caminho. Tal como continuará a ser essencial a capacidade de criar conhecimento e encontrar respostas para desafios comuns.

O ECP termina enquanto Agenda, mas não deve terminar enquanto dinâmica. Foi, antes de mais, um ponto de partida. Criou conhecimento, desenvolveu ferramentas, testou soluções em contexto industrial e, talvez mais importante, ajudou a cimentar uma forma diferente de trabalhar dentro do setor.

O verdadeiro resultado não está apenas no conhecimento e nas ferramentas que ficam. Está também na confiança criada para trabalhar em conjunto. E esse resultado não termina agora: depende daquilo que o setor for capaz de construir a partir daqui.

O desafio agora é garantir continuidade: fazer com que as relações criadas, o conhecimento partilhado e esta dinâmica de cooperação não terminem com o calendário do projeto. Continuar a trabalhar em conjunto onde fizer sentido, identificar novos desafios e transformar o que aprendemos em novas respostas para o futuro.

Porque os números mostram onde estamos. A cooperação mostra onde podemos chegar.

* Responsável de inovação na Vista Alegre Atlantis, entidade líder da agenda Ecocerâmica e Cristalaria de Portugal. Artigo publicado em Ambiente Magazine.

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