
E se um aluno perguntasse ao ChatGPT como se diz ‘breakfast’ em português? Esta interpelação, recebida com alguma apreensão por uma audiência de professores de português, levanta preocupações mais profundas: que variedade é reconhecida como ‘correta’ pela Inteligência Artificial Generativa (IAG)? E que ideias ficaria o aluno a ter sobre as formas legítimas de falar português?”.
Por Danielli Simões, Mariana Martins e Rita Dorneles *
Este episódio ilustra um dos desafios levantados pela adoção generalizada desta tecnologia no ensino de línguas. A subrepresentação das variedades linguísticas menos presentes nos dados utilizados para treinar a IAG constitui um risco particularmente preocupante para o português, pois trata-se de uma língua pluricêntrica, com vários centros de referência e múltiplas normas legítimas. Este cenário reforça a urgência de uma educação que forme cidadãos digitalmente competentes, capazes de compreender, questionar e avaliar criticamente os conteúdos gerados por estas ferramentas.
Com este propósito, foi dinamizado o atelier ‘A IA fala português?’ com 36 alunos do 8.º ano de escolaridade, no Laboratório de Educação em Línguas, CIDTFF, da Universidade de Aveiro. Durante uma hora e meia, organizados em pequenos grupos, os alunos resolveram quatro missões, utilizando ferramentas de IAG, uma brochura orientadora e os seus próprios conhecimentos.
Na primeira, identificaram os territórios onde se fala português e refletiram sobre o caráter pluricêntrico da língua. Na segunda, exploraram a variação lexical da própria língua (por exemplo, ‘pequeno-almoço’ e ‘autocarro’) nos diferentes países. Na terceira, compararam expressões coloquiais de diferentes variedades com as que usam no dia a dia. Na última, desconstruíram preconceitos linguísticos em contextos digitais, produzindo respostas críticas e respeitosas nas redes sociais que habitualmente utilizam.
Em geral, observaram-se dois padrões: sem acompanhamento direcionado do facilitador, alguns grupos selecionaram partes dos outputs da IAG, enquanto outros os incorporaram por completo, sugerindo menor envolvimento em processos metacognitivos de avaliação.
A atividade revelou, também, uma boa recetividade dos alunos quanto à diversidade linguística do português. Ao verificarem que certas variedades só surgem quando explicitamente solicitadas, refletiram sobre a tendência da IAG para privilegiar determinadas normas, essencial para desconstruir preconceitos comuns, como a ideia de que só o português europeu é ‘correto’. Sem uma compreensão clara destes conceitos, os alunos dificilmente adquirirão as ferramentas críticas necessárias para questionar tais afirmações. Reforça-se, assim, a necessidade de uma intervenção pedagógica que os prepare para avaliar e validar criticamente os conteúdos gerados pela IAG.
A questão ‘A IA fala português?’ é, afinal, também uma questão sobre nós: sobre como valorizamos a diversidade da língua e ensinamos as novas gerações a viver, de forma crítica e responsável, num mundo mediado pela IAG. A resposta não está nas ferramentas, mas na educação que escolhemos promover.
* Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro. Artigo publicado no site UA.pt.
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