
O turismo de massas em doses adequadas, cura muitos problemas económicos, mas em doses excessivas (overtourism) cria problemas sociais, urbanos e ambientais.
Por Jorge Nogueira *
“O remédio é para o acidente, não para a essência” – Agostinho da Silva
Num mundo obcecado por soluções rápidas, o Ozempic tornou-se o símbolo perfeito duma promessa milagrosa de resultados imediatos e visíveis. O Ozempic é o nome comercial de um medicamento injetável cujo princípio ativo é a semaglutida, desenvolvido para o tratamento da diabetes tipo 2. Estimula a produção de insulina, atrasa a digestão e reduz o apetite. Ganhou enorme popularidade pelo efeito colateral que se tornou o seu principal atrativo: a perda de peso. A sua enorme procura disparou devido aos seus rápidos resultados visíveis e por as influencers digitais começarem a partilhar as suas transformações nas redes sociais. Como qualquer medicamento, também tem efeitos secundários, sendo neste caso os mais comuns, vómitos, diarreias, inchaço e dores abdominais, sobretudo no início da toma. O seu uso indiscriminado sem prescrição médica pode fazer mal à saúde. Além disso pode provocar o chamado efeito ricochete, pois se a pessoa parar de tomar o medicamento, interrompendo o tratamento, pode voltar a recuperar o peso perdido rapidamente. Não pode ser considerado um medicamento mau ou perigoso, quando bem prescrito, devendo ser usado com supervisão médica e não apenas por motivos estéticos.
Longe das farmácias, Portugal descobriu o seu próprio remédio milagroso, injetando na sua economia uma substância potente, mas perigosa: o turismo de massas. Diz assim na bula do turismo de massas: “Indicado para economias com crescimento estagnado, cidades deprimidas e governos sem imaginação estratégica. Produz resultados rápidos. Pode causar dependência.”
No turismo português, o medicamento tem três princípios ativos: os voos low-cost, os alojamentos airbnb e a estética dos influencers.
Os voos low-cost trouxeram os pacientes à consulta e foram a Ryanair e a Easyjet que injetaram as primeiras doses, logo com resultados imediatos. Nunca foi tão fácil e barato viajar. Lisboa, Porto e Faro tornaram-se destinos acessíveis para fins-de-semana dos europeus, mas com cidades ou aeroportos impreparados. Tem os seguintes efeitos secundários: aumento do carbono emitido por esses voos e aeroportos sobrecarregados.
Coube aos alojamentos airbnb prescrever a receita; as plataformas de alojamento local permitiram hospedar os visitantes de uma forma simpática em casas, com anfitriões reais. Reabilitaram prédios em ruínas e permitiram aos pequenos proprietários ter um rendimento extra, rentabilizando os seus imóveis. Prometiam partilhar casas e desenvolver a comunidade. Nasceram como uma solução engenhosa para rentabilizar quartos vazios. Efeitos secundários: apartamentos retirados do mercado tradicional de arrendamento, moradores expulsos para a periferia e o tecido social dos bairros dissolveu-se.
Depois há um terceiro elemento ativo, o mais subtil de todos que são os influencers da fotografia rápida. Fotografam os principais pontos fotogénicos, sem sentir ou vivenciar verdadeiramente uma cidade ou região. São os colecionadores de imagens para publicar nas redes sociais. Efeitos secundários: o destino é consumido como um produto visual e não como uma experiência, não se viaja para conhecer, mas para se captar o angulo perfeito, já não se visita, mas escolhe-se o melhor cenário para um fundo fotográfico. As cidades adaptaram-se criando instagram spots, mas perderam autenticidade.
Tal como a semaglutida, que usada devidamente com acompanhamento médico, pode ser um medicamento legitimo e eficaz, também o turismo de massas não é intrinsecamente mau. Atrai investimento, cria emprego, revitaliza cidades, recupera património e edifícios abandonados, requalifica espaços públicos, gera receitas fiscais e faz-nos ter visibilidade internacional. O turismo traz novos clientes aos restaurantes, comércio, transportes e empresas de animação turística. O problema nunca foi o medicamento, foi a ausência de prescrição ou a sobredosagem.
O turismo de massas em doses adequadas, cura muitos problemas económicos, mas em doses excessivas (overtourism) cria problemas sociais, urbanos e ambientais. Injetar milhões de turistas sem planear infraestruturas cria uma ilusão de riqueza imediata, e por outro lado, leva à destruição da sustentabilidade das cidades a longo prazo.
Como qualquer médico sabe, existe uma diferença entre tratamento e dependência, pelo que não podemos aumentar continuamente a dose. A solução é menos quantidade e mais qualidade; menos locais, mais tempo; menos fotografias, mais presença. Falta uma dose de ponderação. Falta fazer uma desintoxicação; um modelo menos escalado, menos comercial e menos superficial. Portugal precisa de um turismo que respeite os residentes, preserve a identidade dos lugares e contribua para uma economia mais diversificada e resiliente. Precisa de valorizar o viajante que fica vários dias, que gasta mais e que respeita. A viagem a Portugal não pode ser percebida como de plástico, rápida, mastigada e digerida rapidamente. O país não pode ser visto como uma máquina de consumo acelerado de lugares. E para isso, não precisa de emagrecer para agradar.
* Economista e CEO & Founder da Iberobus. Artigo publicado no site Publituris.
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