Turistas, Aveiro.

Há três ideias que raramente aparecem juntas numa conversa sobre turismo: a dimensão filosófica da viagem, a capacidade de antecipar o futuro e a procura universal da felicidade.

Por Antonio Jorge Costa *

Quando se cruzam, revelam algo que o setor tarda em aceitar. O turismo do século XXI não é uma indústria de deslocações. É uma indústria de sentido.

Quem estuda o comportamento do viajante sabe há muito que o valor de uma viagem não está apenas no que acontece no destino. Está no que se imagina antes de partir e no que se recorda depois de regressar. A antecipação pode ser mais intensa do que a experiência em si. O dia a dia embacia o olhar e sair do lugar de sempre oferece o pretexto para sair também de si próprio.

Isto tem consequências práticas para quem gere destinos e empresas de turismo. A cadeia de valor é muito mais longa do que os modelos económicos habituais reconhecem. Gerir bem a fase da inspiração e a fase da memória, e não apenas a estada, é uma vantagem que os concorrentes focados só na operação dificilmente conseguem imitar.

O futuro não se prevê. Constrói-se

O futuro não é uma linha reta a partir do presente. É um espaço de possibilidades que depende das escolhas que fazemos hoje, das tecnologias que adotamos, dos valores que decidimos defender, das tendências a que prestamos atenção antes de toda a gente. A pergunta relevante não é onde vamos chegar, mas para onde queremos ir. E isso implica agência, não resignação.

No turismo, esta distinção é decisiva. Os destinos que prosperam são os que não esperam que o mercado os obrigue a mudar. Testam, ajustam, antecipam. Saber hoje o que os viajantes de amanhã vão valorizar, regeneração, autenticidade, ritmo lento, bem-estar integrado, desconexão digital, é a diferença entre liderar e seguir.

A felicidade como métrica estratégica

Há uma pergunta que poucos relatórios de turismo ousam fazer diretamente: o que torna as pessoas genuinamente felizes? A resposta, quando se procura com seriedade, não é superficial nem fácil. É contextual, relacional e territorial. As pessoas são mais felizes em lugares bem pensados, em comunidades que funcionam, no equilíbrio entre movimento e repouso, no contacto humano real.

A investigação em turismo confirma-o. A satisfação do visitante não cresce com o número de atrações ou com a intensidade do programa. Cresce com a qualidade da experiência vivida, com o sentimento de pertença temporária a um lugar, com a perceção de que aquilo que se vive é genuíno. Os destinos que percebem isso param de competir pelo volume e passam a competir pela profundidade.

Três perspetivas, uma só lente

Quando se olha para estas três dimensões em conjunto, a viagem como estado interior, o futuro como construção intencional e a felicidade como bússola estratégica, chega-se a uma conclusão que temos defendido há anos: o turismo do futuro é intencional, experiencial e humano. Não se vende uma noite de hotel, vende-se uma transformação. Não se monitoriza a ocupação, monitoriza-se o impacto no bem-estar. Não se reage ao mercado, antecipa-se a procura.

As oportunidades estão precisamente onde estas três dimensões se cruzam: em produtos que geram sentido antes, durante e depois da viagem, em destinos que se reinventam a partir de mudanças que ainda não chegaram a toda a gente, e em modelos de desenvolvimento que colocam a felicidade dos residentes e dos visitantes como indicador central de sucesso.

A ameaça que ninguém nomeia

A principal ameaça para os destinos não é a concorrência. É a indiferença. Um turismo sem alma, massificado e sem identidade, não perde mercado para um concorrente melhor. Perde-o para a irrelevância. O viajante de hoje tem mais opções, mais informação e menos paciência para experiências que podiam ter acontecido em qualquer outro lugar.

Só resistem os destinos capazes de responder, com clareza e convicção, a uma pergunta simples: porque é que este lugar me faz querer ser diferente? Os que não tiverem resposta para isso serão, simplesmente, esquecidos.

* Presidente IPDT – Tourism Intelligence. Artigo publicado originalmente no site Publituris.pt.

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