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Nos últimos anos, as ondas de calor deixaram de ser acontecimentos excecionais para se tornarem uma realidade cada vez mais frequente em muitas regiões do mundo, incluindo Portugal. Verões marcados por temperaturas extremas e prolongadas têm levantado preocupações não apenas pelo desconforto que provocam, mas também pelos seus impactos na saúde, no ambiente e na economia.

Por Sílvia Coelho *

Uma onda de calor corresponde a um período prolongado de temperaturas anormalmente elevadas para uma determinada região e época do ano. Em Portugal, considera-se que existe uma onda de calor quando, durante pelo menos seis dias consecutivos, a temperatura máxima diária ultrapassa em 5 °C o valor médio esperado para esse período.

Embora estes episódios façam parte da variabilidade natural do clima, a ciência tem demonstrado que as alterações climáticas estão a torná-los mais frequentes e mais severos. O aumento da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera está a aquecer o planeta e a aumentar a probabilidade de ocorrência de fenómenos de calor extremo.

Porque acontecem?

As ondas de calor estão normalmente associadas à presença de sistemas de alta pressão atmosférica, conhecidos como anticiclones. Estas situações promovem a estabilidade da atmosfera, favorecendo dias consecutivos de céu limpo, elevada radiação solar e reduzida circulação do ar, permitindo que o calor se acumule à superfície.

Em algumas situações, massas de ar muito quente provenientes do Norte de África podem ser transportadas para a Península Ibérica, contribuindo para a ocorrência de temperaturas excecionalmente elevadas.

Mais do que desconforto: um problema de saúde pública

As consequências das ondas de calor vão muito além do desconforto sentido pela população. As temperaturas extremas podem provocar desidratação, exaustão pelo calor, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias e, nos casos mais graves, golpe de calor, uma condição médica que pode ser fatal. Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas, trabalhadores expostos ao exterior e populações socialmente desfavorecidas. Além dos efeitos diretos, as ondas de calor podem também agravar problemas de qualidade do ar, favorecendo a formação de ozono troposférico e aumentando a exposição da população a poluentes atmosféricos.

Impactos no ambiente e na economia

As ondas de calor exercem também uma forte pressão sobre os ecossistemas e os recursos naturais. O aumento das temperaturas e a redução da humidade dos solos aumentam significativamente o risco de incêndios rurais. Na agricultura, as temperaturas extremas podem reduzir a produtividade das culturas e aumentar as necessidades de rega. Por sua vez, o aumento da procura de energia para arrefecimento dos edifícios coloca maior pressão sobre os sistemas energéticos e pode traduzir-se em custos económicos acrescidos.

O que nos reserva o futuro?

As projeções climáticas apontam para um aumento da frequência e intensidade das ondas de calor ao longo do século XXI. A região mediterrânica, incluindo Portugal, é considerada um dos principais “hotspots” das alterações climáticas, sendo particularmente vulnerável ao aumento dos extremos de temperatura.

Este cenário reforça a necessidade de desenvolver estratégias de adaptação que permitam proteger a população e aumentar a resiliência das cidades e dos territórios. Melhorar os sistemas de alerta precoce, aumentar os espaços verdes urbanos, adaptar os edifícios ao calor e proteger os grupos mais vulneráveis são algumas das medidas que podem ajudar a reduzir os impactos futuros.

* Investigadora do CESAM / Universidade de Aveiro. Artigo publicado no site UA.pt.

 

 

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