
A Segurança e a Defesa assumem hoje uma dimensão muito mais ampla do que aquela que tradicionalmente lhes era atribuída, face ao contexto internacional marcado por instabilidade geopolítica e à alteração da perceção atual de cidadania no mundo ocidental.
Por Fernando de Almeida Santos *
A transformação tecnológica acelerada e crescente interdependência entre sistemas críticos internos ou externos a Portugal, determina que a segurança dos Estados depende cada vez menos de fronteiras físicas, mas sim da robustez das suas capacidades, sejam infraestruturas, tecnologia ou conexões físicas, digitais ou energéticas.
Foi neste enquadramento que a Ordem dos Engenheiros elegeu 2026 como o Ano dedicado à Engenharia na Segurança e Defesa, reconhecendo o papel determinante que a Engenharia desempenha na proteção do território, das pessoas e dos sistemas que sustentam o funcionamento da sociedade contemporânea.
A Segurança deve ser entendida numa perspetiva alargada e integrada, que cruza três dimensões fundamentais: a Defesa, enquanto capacidade de proteção do Estado e das suas infraestruturas estratégicas; a relação entre Defesa e Cidadania, na medida em que sociedades informadas, preparadas e tecnologicamente resilientes são parte integrante da resposta coletiva às ameaças; e a própria Cidadania, enquanto beneficiária direta de sistemas seguros e fiáveis.
As infraestruturas críticas constituem hoje o núcleo da soberania funcional de um país. A sua vulnerabilidade traduz-se em riscos diretos para o funcionamento do Estado e para a qualidade de vida das populações. A Engenharia desempenha um papel central na conceção, operação e proteção destes sistemas. A crescente digitalização da sociedade veio introduzir novos vetores de risco, com particular destaque para a cibersegurança, ciberdefesa, gestão e proteção dos dados, inteligência artificial e modernização dos sistemas atendendo à salvaguarda e soberania dos Estados.
A confiança nos sistemas digitais, na administração pública eletrónica, nas redes de comunicação e nas plataformas tecnológicas tornou-se um elemento essencial da segurança coletiva, baseado em ferramentas de apoio sob liderança humana, cada vez mais
técnica e sob alçada de engenheiros e na intervenção destes no apoio a decisões estratégicas e políticas.
Importa sublinhar que a Segurança e a Defesa se afirmam hoje como prioridades estratégicas no quadro europeu e mundial. A dimensão atlântica e europeia, onde Portugal se insere, tem vindo a reconhecer a necessidade de reforçar a sua autonomia estratégica, através do investimento em capacidades infraestruturais, cientifico-tecnológicas, industriais, digitais, ambientais, sociais e económicas que assegurem maior independência e capacidade de resposta face a crises internacionais complexas.
Os investimentos em Segurança e Defesa devem ser tidos como estratégicos, como escolhas estruturantes de futuro, pois é investir em inovação, em conhecimento e em competitividade e desenvolvimento. É também garantir que os Estados dispõem de competências próprias para conceber, gerir e proteger sistemas críticos, reduzindo dependências externas. Parte substancial desses desígnios estão a cargo
dos engenheiros, a quem cabe assegurar essa tripla resposta – resiliente, segura e sustentável.
* Diretor da Revista Ingenium. Editorial da edição de abril, maio e junho de 2026.
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