
Ela é natural de uma aldeia da chamada hoje, Beira Interior, situada nas faldas da Serra da Estrela, onde os invernos são de neve e frio rigoroso, mas os verões não são mais calmos. Sol e calor tórridos. E tinha um tio que era…bispo. O resto é o que mais se verá!
Os pais viviam em Lisboa, e, sempre que podiam, atiravam-na para casa dos avós, escondida nessa terra tão simples, como simples era quem lá vivia. Gostava.
Neta única tinha os mimos todos e deixavam-me fazer e comer tudo o que queria.
O ponto alto da vivência beirã acontecia, pelos meados de Agosto, quando se celebrava a festa da aldeia, dedicada à padroeira, Nossa Senhora do Almoutão. Todos os forasteiros iam à terra nessa ocasião assistir aos festejos de que se destacavam as cerimónias religiosas e, claro a procissão. O Bispo, que era também natural de lá, ia de Castelo Branco, onde residia, para presidir às cerimónias. Instalava-se de véspera na casa da família porque era irmão do avô dela (tio-avô) e, nessa noite, deixava o hábito patriarcal, para ser apenas o homem a contar histórias, e a conviver com os seus.
Nesse ano, ainda pequena, acompanhou entusiasmada todo o frenesim dos preparativos da festa familiar que reunia lá em casa tios, primos, etc.
De manhã, quando o tio-avô Bispo ia sair de casa para a igreja, a avó perguntou-lhe se iria almoçar lá a casa , ao que ele respondeu:
– Pois, lá terei que dizer uma mentirita ao Zé….. que já me convidou par almoçar, mas eu prefiro vir aqui, não tenho paciência para o aturar.
Ela não perdia pitada de tudo o que acontecia à sua volta.
A procissão saía da Igreja, dava a volta à aldeia e ia parando em frente às casas onde moravam as pessoas, então consideradas “importantes”. O senhor bispo e as restantes autoridades paravam e entravam para abençoar os já abençoados, refrescarem-se com algo adequado, ou para outras necessidades emergentes.
Quando a procissão parou em frente à casa do avô estavam todos à varanda, enfeitada com uma colcha amarelo dourado. Desceram a correr para receber a bênção bispal. A avó que a conhecia muito bem, pegou-lhe num braço e disse-lhe:
– Vais beijar a mão ao tio bispo muito caladinha. Não dizes nada.
– Porque é que tenho que beijar a mão do tio bispo, perguntou.
E a avó, que afinal não a conhecia tão bem como pensava, para a convencer, respondeu:
– Porque ele tem um anel que só os homens santos que não pecam é que têm.
E assim foi. O tio bispo e todas as autoridades entraram, todos se curvaram para beijar o anel e, a seguir, ela estendeu a mão e disse, perante o espanto de todos:
– Vá, tio bispo, beija também a minha mão.
– E porque hei-de eu beijar a tua mão, questionou ele. Ela prontamente respondeu:
– Porque tu não és santo porque ainda hoje mentiste e a mim não me deixam mentir!
Não se sabe o que o tio-bispo respondeu. Mas também não interessa.
Há situações que tanto confundem os que se dizem santos como os que o não são…Mas as crianças…. Ah essas…cuidado com elas!
Jesus Zing
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