
Para que serve brincar? À primeira vista, a resposta parece simples: brincar serve para divertir. E serve, também. Mas reduzir o brincar a entretenimento é ignorar uma das experiências mais importantes do desenvolvimento infantil.
Por Suliane Porto *
Hoje sabemos, também pela investigação em Educação e Psicologia, que o brincar é fundamental para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo das crianças. Elas precisam de tempo e oportunidades para explorar o mundo interior e exterior. E o brincar é uma das formas mais naturais e genuínas de o fazer. Através da brincadeira podem aprender a comunicar, a resolver problemas, a lidar com emoções e a relacionar-se com os outros.
Num jogo em grupo, a criança pode aprender a respeitar regras e a lidar com frustrações. Numa brincadeira simbólica, pode exercitar a criatividade e a empatia. Numa brincadeira de construção conjunta, como montar uma torre ou criar uma maquete, pode aprender a negociar, a colaborar e a persistir perante as dificuldades.
O brincar funciona também como um termómetro do bem-estar infantil. Muitas vezes, revela aquilo que a criança ainda não consegue explicar por palavras. Ao brincar, expressa emoções, organiza experiências e encontra maneiras de lidar com o que sente. Por isso, quando o brincar desaparece ou se torna raro, pode ser importante escutar esse silêncio. Por vezes, há emoções ou situações difíceis de compreender e organizar. Noutros casos, são as rotinas, demasiado preenchidas por atividades e compromissos, que fazem com que o tempo livre para brincar quase desapareça.
É igualmente importante destacar que valorizar o brincar não deve ser confundido com transformar todas as brincadeiras em atividades dirigidas, com objetivos definidos à partida e resultados esperados. Pelo contrário, significa reconhecer que o brincar livre, em ambientes seguros e acolhedores, constitui uma oportunidade poderosa de desenvolvimento. Cabe aos adultos criar condições, observar, e valorizar aquilo que emerge da experiência da criança.
Locais como museus, bibliotecas, centros de ciência, projetos artísticos ou desportivos são contextos educativos não formais que têm aqui um papel importante. Pois há espaço para explorar, experimentar e descobrir sem a pressão constante da avaliação. Aprende-se pela experiência, pela participação e pela relação com os outros.
Talvez, então, a pergunta já não seja apenas para que serve brincar, mas também o que acontece quando uma criança brinca. Porque, quando brinca, a criança não está apenas a ocupar o tempo. Está a aprender a conhecer-se, a expressar emoções, a relacionar-se com os outros e a desenvolver competências essenciais para a vida.
E isso convida-nos a refletir sobre que tempo, recursos, espaço e presença estamos realmente a oferecer às crianças para que possam brincar – a sério.
Esta reflexão integra uma investigação de doutoramento em curso no CIDTFF/DEP/UA sobre a promoção de competências socioemocionais das crianças em diferentes contextos educativos.
* Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro (UA). Artigo publicado originalmente no site UA.pt.
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