
O país volta a posicionar-se como uma das primeiras origens europeias a entrar no mercado com variedades Northern Highbush, numa campanha marcada por precocidade, calor inicial e alguma incerteza comercial.
Por Jorge Duarte *
Portugal iniciou a campanha de mirtilo Northern Highbush com uma antecipação significativa em várias zonas produtoras. As primeiras colheitas começaram por volta de 22 a 25 de maio, em regiões tradicionalmente mais precoces e de frio intermédio, confirmando novamente o papel do país como uma das primeiras origens europeias a colocar esta fruta no mercado.
Este início representa uma transição importante no calendário europeu do mirtilo. Portugal entra em produção no momento em que a oferta do sul, associada sobretudo a variedades Southern Highbush, começa a dar lugar à fruta Northern Highbush produzida mais a norte. Nesta janela de transição, o país tem uma posição estratégica pela sua precocidade, proximidade logística aos mercados europeus e diversidade de zonas de produção.
As primeiras zonas a iniciar a campanha foram regiões como Santarém, Alpiarça, Pegões, Ribatejo e Estremoz, onde algumas explorações começaram os primeiros passes de colheita entre meados e final de maio. A estas zonas juntaram-se regiões normalmente mais frias, como Viseu, Mangualde e outros pontos do centro-norte, que este ano também apresentam uma precocidade particular.
Em várias destas zonas, a campanha começou entre 10 e 15 dias mais cedo do que o habitual. Em anos normais, as primeiras colheitas mais consistentes tendem a concentrar-se no final da primeira semana de junho. No entanto, em 2026, alguns produtores já iniciaram a colheita na última semana de maio.
Também no norte do país, em zonas como Braga e o Minho, a primeira fruta começou a aparecer por volta de 25 de maio. Alguns produtores optaram por aguardar alguns dias para obter uma maturação mais uniforme e entrar no campo com equipas de colheita quando a fruta apresentasse uma condição mais regular.
O arranque da campanha ocorreu num contexto climático exigente. Durante os últimos dias de maio, Portugal registou uma onda de calor, com temperaturas que em algumas zonas se aproximaram ou ultrapassaram os 40 °C. Este episódio coincidiu com o início da colheita e teve impacto em algumas parcelas, atrasando parcialmente a maturação e afetando o calibre inicial de determinados lotes.
Ainda assim, as observações de campo apontam para uma qualidade geral positiva. A fruta apresenta boa condição comercial, firmeza interessante e um calibre médio adequado para o início da campanha. Em variedades como Duke, observam-se calibres médios frequentes entre 16 e 18 mm, com variação em função da zona, carga produtiva, gestão agronómica, idade da plantação e disponibilidade hídrica.
Portugal entra assim no mercado num momento comercial delicado, mas interessante. A oferta proveniente do sul ainda tem influência, e países vizinhos como Espanha, nomeadamente zonas precoces como Plasencia, também estão ativos com Duke em datas semelhantes. Contudo, a entrada portuguesa reforça a transição para a produção europeia de Northern Highbush, antes de outras origens como Sérvia, Roménia ou Polónia ganharem maior presença.
A campanha apresenta também alguns desafios. Um dos principais temas referidos pelo setor é a disponibilidade de mão de obra. Alterações recentes nas políticas migratórias e atrasos na chegada de trabalhadores provenientes de outras regiões têm criado alguma pressão em determinadas explorações. Isto obriga a uma gestão mais precisa da colheita, sobretudo em dias de temperaturas elevadas.
Neste contexto, será essencial organizar os trabalhos nas horas mais favoráveis do dia, principalmente de manhã cedo e ao final da tarde. Esta estratégia permite proteger a qualidade da fruta, melhorar o rendimento das equipas e reduzir o risco de perda de firmeza ou deterioração pós-colheita.
Na ANPM – Associação Nacional de Produtores de Mirtilo, o início da campanha é vivido com concentração técnica e prudência. Muitos dos seus membros são também produtores e gestores de explorações, estando atualmente focados nos pontos mais críticos do arranque: maturação, colheita, mão de obra, pré-arrefecimento, cadeia de frio e entrega da fruta em boas condições ao cliente.
A cadeia de frio volta a ser um dos aspetos mais sensíveis do início da campanha. Em semanas marcadas por calor e por uma entrada progressiva de fruta, a rapidez entre colheita, pré-arrefecimento, classificação e expedição pode fazer uma diferença significativa na vida comercial do mirtilo.
Do ponto de vista do mercado, existe alguma incerteza sobre a evolução dos preços. O impacto da fruta do sul ainda se sente, embora se espere que a entrada progressiva de fruta Northern Highbush europeia ajude a reorganizar a oferta. Para as empresas comercializadoras, o objetivo será manter fornecimento estável durante estes meses de transição e responder à procura de mercados como Espanha, Alemanha, Países Baixos e Reino Unido.
Apesar dos desafios, o início da campanha portuguesa é observado com otimismo moderado. A fruta está a chegar ao mercado com boa qualidade, as zonas produtoras mostram uma resposta precoce interessante e Portugal volta a demonstrar que pode desempenhar um papel relevante no calendário europeu do mirtilo.
A campanha será exigente, mas também oferece uma oportunidade clara: reforçar a imagem de Portugal como origem precoce, técnica e competitiva, capaz de entregar fruta próxima dos principais centros de consumo europeus numa janela comercial de elevado valor.
Como acontece frequentemente na produção portuguesa de fruta, o arranque chega com prudência, trabalho intenso e uma dose importante de confiança. O setor quer mostrar ao mercado o que o país tem no campo nesta campanha.
* Conselheiro Técnico da Associação Nacional de Produtores de Mirtilo (ANPM)
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