Palacete Visconde de-Valdemouro, Vagos.

Foi uma pequena história que fez “furor” nos primeiros anos do poder local no Portugal democrático. Aconteceu em Vagos.

Os protagonistas foram a presidente da Câmara, Alda Vítor e o vereador Domingos Cerqueira. Tudo por causa de um…cão. Em 2015, Domingos Cerqueira, publica o livro “Memórias que não são só memórias”. E recorda o episódio, como segue.

“Tomei posse de vereador da Câmara Municipal de Vagos (…) Logo na primeira reunião em que participei, passou-se um episódio um pouco caricato que serviu para as pessoas começarem a saber o que podiam esperar de mim.

A senhora presidente tinha um cão que a acompanhava para toda a parte (…)Ora, sobre o cão da senhora presidente, um cãozito rafeiro que andava sempe atrás dela para onde quer que ela fosse, quando lhe perguntavam, ela respondia:

– Este cão é o meu vereador da Câmara de Vagos, por isso anda sempre comigo.

Logo na primeira reunião da Câmara em que participei, estávamos todos na sala à espera da chegada da senhora, quando ela chega, tipo presidenta general, com o cãozito rafeiro atrás, de cauda a dar a dar. Ela senta-se na sua cadeira de poder e o cão enrosca-se a seus pés. Acto contínuo, sem que eu tivesse pensado nisso antes, recolho todos os meus papéis que já tinha na mesa, dei os bons dias e saí porta fora. Ia já na praça fronteiriça, quando vem o chefe da secretaria atrás de mim, a dizer que a senhora presidente queria começar a reunião, e se eu não me importava de regresssar.

– Sr. João – disse eu -, diga à senhora presidente que o quórum está completo. Como ela diz que o cão é um vereador, está o número completo. Só que eu não aceito ter como colega vereador um cão.

E fui para o café, onde passados minutos voltou o sr. João.

-Sr. Vereador, a senhora presidente diz que pode vir, que mandou recolher o cão.

Eu voltei para a sala e a reunião começou. A certa altura vêm chamar a presidente ao telefone. Demorou uns minutos. Regressou acompanhada do cão “vereador”. Não abri boca, levantei-me, recolhi os meus pertences e já ia a pôr a mão à porta para sair quando ela grita:

– Esteja descansado que o cão vai já embora.

E o cão saiu para não voltar mais, nem nesse dia nem nos dias que se seguiram, daí até ao fim. Nesse dia o cão vereador perdeu definitivamente o mandato na Câmara de Vagos (…)”.

Jesus Zing

Nota: Alda dos Santos Vítor foi presidente da Câmara de Vagos, eleita pelo CDS e pelo PPM, entre 1976 e 1985. Faleceu com 96 anos, em Agosto de 2018. Fez muito pouca campanha, não tinha experiência de falar em público e estava em casa, em Lisboa, quando soube que tinha sido eleita. Inicialmente, continuou a viver em Lisboa, devido ao trabalho do marido, deslocando-se todas as semanas a Vagos e regressando a Lisboa ao fim de semana, como se pode ler na Wikipédia. O seu nome está incluído na toponímia de Soza (Vagos), onde faleceu. Era natural de Aveiro. Domingos Cerqueira, 89 anos, nasceu em Aveiro. Foi presidente da Assembleia Municipal de Vagos (CDS), deputado à Constituinte, vereador da Câmara de Aveiro (PSD) e dirigente associativo – Florinhas do Vouga e Bombeiros Velhos, entre outras associações.

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