
O “Vê Portugal” é um fórum dedicado a pensar, promover e valorizar o turismo interno, com particular ênfase no Centro de Portugal, uma região acolhedora, autêntica e culturalmente rica, perfeita para quem procura natureza e tradição. Independentemente disso, acredito que o primeiro debate não deva ser sobre a promoção das valências turísticas da região, mas sobre uma pergunta bem mais básica: de um modo geral, como é que se chega ao tal Centro?
Por Pedro Castro *
Numa perspetiva da conectividade aérea – aquela que nos dizem que este Portugal periférico depende para ser um destino turístico – este Centro não está no centro da política pública aeroportuária. Bem pelo contrário: o projeto é que continue dependente exclusivamente dos aeroportos do litoral – Lisboa ou Porto – seguidos de mais algumas horas de estrada porque a ferrovia, essa, continua pelas ruas da amargura. Isto cria uma realidade interna absurda: para um madeirense – ou até para alguém no Algarve – pode ser mais rápido, mais simples, mais direto e porventura mais barato chegar a Paris ou Londres do que a Viseu, a cidade que este ano acolhe o Vê Portugal. Pense-se no que isto significa: enquanto se multiplicam campanhas sobre turismo interno, o próprio país continua desenhado para dificultar que os portugueses viajem dentro do seu próprio território.
Quantas viagens ficam por fazer? Quantos fins de semana nunca acontecem? Quanto turismo interno estamos a deixar para trás simplesmente porque a mobilidade não acompanha o discurso político? Como se compreende que num país como Portugal, com uma dimensão continental e outra insular, não existam ligações mais capilares entre estas duas geografias? Neste aspeto, continuamos agarrados às ligações aéreas que tínhamos nos anos 70, esquecendo que a sociedade evoluiu, com estudantes deslocados, famílias repartidas entre continente e ilhas, empresas, negócios, relações institucionais dos dois lados e, claro, turismo em potência em ambos os sentidos.
Dos 10 mil lugares de avião por dia entre a Madeira e Lisboa/Porto, é estatisticamente impensável que não existam passageiros oriundos ou com destino ao Centro de Portugal, mas infelizmente para eles e para todos nós, continuam encurralados exatamente na mesma lógica de há meio século: carro até Lisboa ou Porto, aeroportos congestionados, mais horas de deslocação, mais custos, mais desgaste…o país mudou, a aviação mudou, mas o nosso modelo de ver a mobilidade interna é que não. Peguemos neste exemplo: há 30 anos, o Porto tinha ligações aéreas diretas para apenas uma cidade francesa; hoje, tem voos para quase 20 cidades diferentes em França. A aviação evoluiu para uma lógica de enorme capilaridade, frequência e flexibilidade e as companhias perceberam que nem toda a procura vive nas capitais, que o mercado se fragmentou, se descentralizou e criou novas rotas onde antes parecia impossível. Portugal continua a agir como se só Lisboa, Porto e Faro gerassem passageiros.
“E se houvesse um voo Viseu–Funchal?” A pergunta parece provocatória apenas porque nunca fomos habituados a pensar assim, mas talvez devêssemos. Porque isto não é apenas falar de Madeirenses que poderiam visitar o Centro da mesma forma direta, prática e confortável com que hoje podem visitar cidades como Talin, Marraquexe ou Gdansk. É também falar de habitantes do Centro que poderiam passar um fim de semana solarengo na Madeira naqueles dias cinzentos e frios da sua região. É criar escolhas fáceis, é aproximar mercados, é transformar a viagem numa decisão espontânea e não numa operação logística. Porque quando o passageiro do Centro é obrigado a ir primeiro para Lisboa ou Porto, a Madeira passa a competir com qualquer outro destino – nacional ou internacional – servido a partir desses aeroportos num sistema que foi politicamente desenhado para empurrar esse potencial viajante para fora do turismo interno. Ao mesmo tempo, do outro lado da fronteira, o pequeno aeroporto de Salamanca tem voos para Palma de Maiorca e, mais abaixo, de Badajoz chega-se a Barcelona, Madrid e às Canárias.
Um país que quer promover turismo interno sem discutir a mobilidade interna está apenas a vender slogans e, infelizmente, os slogans não encurtam distâncias.
* Diretor da SkyExpert Consulting e docente em Gestão Turística no ISCE
Artigo publicado no site Publituris.pt.
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