Reserva Natural de São Jacinto (Foto partilhada no Facebook por Hana Francova).

São os pequenos grandes-nadas da vida. Às vezes, a paixão começa e acaba, por um simples…beijo. Ou um cheiro. Um aroma!

A meio da conversa com um amigo, confessou que, passados todos estes anos, já nem se recordava como tinha conhecido um antigo namorado. Lembra-se vagamente que foi num encontro de amigos.

Um olhar, uma atenção…e…um não sei quê de diferente. Nunca se tem bem consciência do momento! Com o decorrer do tempo, foram “descobrindo” alguns pontos comuns… A vida vai-se construindo ao longo do caminho, sorriu ao contar a curiosa história, enquanto procurava uma folha de papel na bolsa, que lhe aparecera um dia destes, na limpeza de uma pratelereira de memórias. Há coisas!…Um dia….tudo se decidiu, lembrou.

Na altura ainda se escreviam cartas. Recorda-se que agarrou uma folha de papel e uma esferográfica e, de forma simples, como sabia, num destempero, escreveu assim: “Serve esta para te dizer que não voltes mais a telefonar-me! Tira-me da tua vida, esquece-me.

Não fomos feitos um para o outro. Certamente te perguntarás porque é que de repente tomo esta decisão, quando, ainda no sábado, fomos a S. Jacinto, e parecia correr tão bem. Pois foi aí que tudo aconteceu! Lembras-te? Apanhámos a lancha e fomos àquele café que fica ali mesmo na esquina, com aquelas mesas de plástico verde, com o logotipo da Sumol gravado em cima.

Os chapéus de sol, vermelhos, estavam abertos, pois fazia calor, e até abanavam um bocadinho com o vento. Estás a ver? Não tinham serviço de esplanada e tu foste lá dentro ver o que havia. Vieste e perguntaste-me o que eu queria. “Um Sumol de laranja”. Então tu, meio encabulado, disseste: “ eu bebia uma cerveja, mas… têm caracóis, não queres?” Como eu não quis, nem nunca tinha provado, perguntaste-me: “se eu mandar vir, pagas a meias comigo?” Sim, claro” – o que é que eu podia fazer? – E foi aí que tudo começou e acabou!

Veio um pratinho com o que me pareceu serem cascas de caracóis. Pelo menos eram pequenos, não eram daqueles grandalhões e ranhosos que, quando deslizam nas couves da horta da minha avó, ou nos muros, deixam atrás deles um rasto de ranheta brilhante… Pegaste numa coisa daquelas e com um palito escarafunchaste e de lá de dentro retiraste uma coisa preta, nojenta, que meteste inteirinha para a boca. Parecia que estavas a tirar “bichos do nariz” e a comer… E estavas consolado.

Comias e pelos cantos da boca escorria-te uma gordura viscosa, porque o prato onde estavam aquelas coisas tinha um molho amarelo, com uns salpicos pretos que pareciam olhos de um qualquer insecto. E tu comias consolado, com a cara quase enfiada no prato. E bebias a cerveja, a pala do boné virada para trás, o suor a escorrer-te da testa. E nem olhavas para mim! E de vez em quando, limpavas uma boca brilhante de gordura, com os lábios vermelhos do picante. Sim, limpavas-te às costas da mão e até arrotaste, quando sorveste o último gole da cerveja! Eu nem conseguia tirar os olhos de ti, como que hipnotizada, e nem fui capaz de acabar de beber o meu Sumol… pagámos a meias… e, ainda por cima, agradeceste-me com um beijo na boca que quase me provocou vómitos.

Pois é Eusébio! E… além disso, conheci o Asdrúbal que beija divinamente e … não cheira, nem sabe a caracóis”.

O amigo perguntou-lhe, por curiosidade, se nunca mais se viram. “Não”, respondeu. “A vida levou-nos para cidades…vidas diferentes” . “Tudo não passou de um…cheiro”, concluiu. “Ou de um…aroma”, retorquiu o seu confidente.

“Não” disse ela.. “Foi um ar que lhe deu!”. E sorriu de bem consigo e com vida.

Jesus Zing

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