Aves migratórias (arquivo).

O Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) assinalou o Dia Mundial das Aves Migratórias 2026. Sob o lema “Cada ave conta – todas as observações são importantes!”, a celebração deste ano reforça a importância da ciência cidadã e da colaboração global para compreender e conservar estas aves, atualmente ameaçadas pelas alterações climáticas e pela degradação dos habitats costeiros.

Por José Alves *

Celebra-se a 9 de Maio de 2026 o dia mundial das aves migratórias, um evento promovido pelas Nações Unidas, através da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres. No CESAM algumas destas aves são o objeto de estudo de uma equipa de investigadores, como é o caso das aves limícola migradoras.

Este grupo de aves inclui as espécies recordistas dos voos migratórios mais longos do planeta sem efetuar qualquer paragem. Na rota migratória do Atlântico Leste, onde Portugal se incluiu, o recordista destes voos é o maçarico-galego (Numenius phaeopus), que pode voar mais de 5500 km, durante cinco dias e cinco noites sem parar para descansar, viajando a uma velocidade média de 54 Km/hora entre a Islândia, onde se reproduz, e a África Ocidental onde passa a maioria da época não reprodutora. Num estudo recente, foi possível constatar que também os juvenis desta espécie demonstram estas capacidades atléticas desde muito cedo, e com apenas dois meses de vida realizam voos similares sobre o Oceano Atlântico, embora mais curtos e a velocidades mais reduzidas de aproximadamente 35 km/h.

Para assinalar estas e outras façanhas o tema da celebração do dia mundial das aves migradoras em 2026 é “Cada ave conta – todas as observações são importantes”! Este slogan pretende estimular a ciência cidadã com a participação e contribuição de todos para melhor se entender estas espécies. Com efeito, os investigadores usam registos obtidos por membros do público para estudar estas aves, especificamente as observações de aves às quais foram colocadas uma combinação única de anilhas de cor, que podem ser feitas por qualquer observador devidamente equipado. Ao registar a espécie, as anilhas de cor que os investigadores colocaram nas longas patas destas aves, o local, dia e hora de observação, e posteriormente comunicar essa informação via email, qualquer pessoa interessada pode contribuir. Esta informação já ajudou os investigadores a definir quais os locais mais importantes para a conectividade migratória do maçarico-de-bico-direito (Limosa limosa) ao longo da sua rota migratória e, ou para saber se os juvenis de Ostraceiro (Haematopus ostralegus) seguem o comportamento migratório do pai ou da mãe.

Apesar dos seus interessantes comportamentos migratórios, as aves limícolas migratórias encontram-se na linha da frente das alterações globais. Têm de lidar com a amplificação polar, isto é, o aquecimento de temperatura mais acelerado nas regiões polares, nomeadamente no ártico onde muitas destas espécies se reproduzem. E, na época não reprodutora, quando se concentram em zonas costeiras, como estuários e praias, sofrem com a desenfreada construção de infraestruturas e cada vez maior perturbação destas áreas, que originam sérias alterações aos seus habitats. Muito infelizmente, muitas destas espécies apresentam atualmente declínios muito acentuados, algumas delas na ordem dos 30% em anos recentes.

Não admira por isso que duas das sete espécies embaixadoras escolhidas para a celebração desta efeméride são aves limícolas migradoras: o Ostraceiro (Haematopus ostralegus), um migrador parcial já referido, e o pilrito-colhereiro (Calidirs pygmaea),uma espécie criticamente em perigo. Para ajudar o conhecimento e a conservação destas espécies à escala global os investigadores do CESAM criaram a plataforma Global Wader, um fórum de partilha de informação de aves limícolas que são seguidas com aparelhos eletrónicos, como por exemplo, seguimento por GPS. Este tipo de seguimento é realizado não apenas por investigadores, mas também por membros de ONGAs, e grupos de anilhagem voluntários. Nesta plataforma os dados de seguimento das aves limícolas à escala mundial estão disponíveis para promover colaborações e apoiar a conservação destas espécies, como foi o contributo prestado por esta plataforma para a designação do arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau, como Sítio do Património Mundial da UNESCO. Desta forma o CESAM contribuiu também para mais um dos principais objetivos do dia mundial das aves migradoras: um esforço global em todas as rotas migratórias.

* Investigador do CESAM/DBIO. Artigo publicado originalmente no site UA.pt.

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