
A recente aprovação do plano “Polinizadores em Ação” por parte do Governo representa um passo importante na conservação da biodiversidade em Portugal. Somos um país que alberga centenas de espécies de polinizadores – desde abelhas a borboletas – essenciais para o funcionamento dos ecossistemas e para a resiliência dos territórios. Ainda assim, o seu declínio, impulsionado por fatores como a perda de habitat, alterações climáticas e intensificação das atividades humanas, coloca desafios urgentes que exigem respostas estruturadas e integradas.
Por João Neves *
O plano agora aprovado assenta em quatro eixos – conhecimento, gestão sustentável, mobilização da sociedade e integração em políticas públicas – e traduz uma visão abrangente e necessária. No entanto, a sua eficácia dependerá sempre da capacidade de traduzir estes princípios em ações concretas, consistentes e próximas das pessoas.
É precisamente neste ponto que projetos de educação ambiental e investigação assumem um papel determinante.
O Borboletário do Zoomarine Algarve surge como um exemplo de como é possível materializar, no terreno, muitos dos objetivos agora definidos a nível estratégico. Mais do que um espaço expositivo, trata-se de uma plataforma que articula educação, ciência e experiência, com o objetivo de sensibilizar para a importância dos polinizadores e promover comportamentos mais conscientes.
Num ambiente imersivo que recria um ecossistema tropical húmido – com temperaturas controladas entre os 25 e os 28 ºC e níveis de humidade entre os 70% e os 90% – são garantidas as condições necessárias para o bem-estar das espécies. A existência de pontos de água acessíveis, bem como uma alimentação cuidadosamente definida, baseada em néctar e fruta madura, refletem igualmente uma abordagem rigorosa ao maneio. Este cuidado técnico é fundamental não só para assegurar a qualidade do habitat, mas também para permitir a observação autêntica dos comportamentos das borboletas.
Neste espaço, onde acolhemos, ao longo de 2025, mais de dezassete mil borboletas de oitenta espécies diferentes, os visitantes podem acompanhar de perto o ciclo de vida das borboletas, desde o ovo até à fase adulta, e compreender o seu papel enquanto agentes polinizadores. Esta proximidade, aliada a uma experiência sensorial envolvente, potencia uma ligação emocional à natureza que é essencial para transformar conhecimento em ação.
A componente pedagógica do projeto foi desenvolvida de forma estruturada e alinhada com os diferentes níveis de ensino, permitindo abordar temas como a metamorfose, as relações ecológicas, a polinização e as ameaças à biodiversidade. Ao mesmo tempo, a existência de mecanismos de avaliação do impacto destas atividades demonstra uma preocupação com a eficácia da mensagem e com a melhoria contínua das abordagens educativas.
Paralelamente, o Borboletário integra uma dimensão científica relevante, funcionando como um laboratório vivo onde são desenvolvidos projetos de investigação em parceria com instituições académicas. O estudo do ciclo de vida de espécies, bem como a análise dos comportamentos pró-conservação, contribui não só para o avanço do conhecimento científico, mas também para a definição de estratégias mais eficazes de sensibilização.
Este tipo de iniciativas evidencia que a conservação da biodiversidade depende não só de políticas públicas, mas também da capacidade de envolver a sociedade, criar experiências significativas e produzir conhecimento.
O plano “Polinizadores em Ação” estabelece um enquadramento estratégico essencial, mas são projetos como o Borboletário que demonstram de que forma esse enquadramento pode ganhar vida no terreno, aproximando ciência e educação.
Num momento em que se pretende inverter o declínio dos polinizadores até 2030, o desafio passa por garantir que estas diferentes dimensões não evoluem de forma isolada, mas sim de forma articulada, garantindo o equilíbrio dos ecossistemas de que todos dependemos.
* Diretor de Ciência e Conservação do Zoomarine Algarve. Artigo publicado originalmente em ambientemagazine.com.
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