Canal central, Aveiro.

A vida sustentável vai além da simples preservação do meio ambiente. Envolve práticas que visam garantir a continuidade dos recursos naturais, promovendo uma convivência harmoniosa entre o homem e a natureza. No contexto urbano, a sustentabilidade é essencial para melhorar a qualidade de vida das populações, suprindo as necessidades do presente sem comprometer as futuras gerações(1).

Por Ana Milhazes *

A forte ligação ao mar, à terra e aos animais cresceu comigo, mas foi-se perdendo na vida adulta. Tendemos a perder essa ligação devido à sociedade acelerada e focada no consumo. Esta desconexão com a natureza e a ligação intensa ao consumo contribuem significativamente para a insustentabilidade.

O conceito de “sociedade descartável” destaca como estamos numa trajetória insustentável.

Paul Connett afirma: “O desperdício é a evidência de que estamos a fazer algo errado. (…) a nossa tarefa é combater o consumo excessivo e a sua manifestação mais evidente: a ética do descartável. Em vez de tentarmos ser mais sofisticados na eliminação do desperdício, temos de parar de comprar coisas que não precisamos e as indústrias têm de parar de fabricar coisas que não possam ser reutilizadas.”(2)

O Zero Waste visa a eliminação completa de resíduos enviados para aterros e incineradores, promovendo cinco princípios: Recusar, Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Compostar. Em 2017, adotei o Desperdício Zero como estilo de vida. Procurei opções reutilizáveis, recusei descartáveis e adquiri produtos mais sustentáveis. Acredito que o foco deve estar na recusa, redução e reutilização. Estes são alguns dos produtos que utilizo no meu dia-a-dia, como a garrafa, copo e talheres reutilizáveis, champô sólido, escova de dentes de bambu, entre muitos outros.

Com a urbanização crescente e os desafios ambientais, é vital examinar o que significa viver de forma sustentável nas cidades modernas. As cidades são responsáveis por uma grande parte das emissões de carbono e consumo de recursos. Implementar práticas sustentáveis pode reduzir esses impactos, tornando as áreas urbanas mais habitáveis e resilientes.

Práticas sustentáveis nas cidades incluem mobilidade sustentável, gestão de resíduos, eficiência energética, espaços verdes urbanos e consumo consciente. Práticas como o uso de transportes públicos eficientes, adoção de energias renováveis e gestão inteligente de resíduos são essenciais.

A produção de resíduos é um desafio. Todos os anos, produzem-se cerca de 2 mil milhões e meio de toneladas de lixo na União Europeia(2). Uma das soluções é substituir o modelo atual de economia linear por uma economia circular. Um modelo que prolonga o ciclo de vida dos produtos, focando-se em usar o que já existe, reparar, pedir emprestado, alugar, trocar, comprar em segunda mão, separar para reciclar e, só em último caso, comprar algo novo.

O modelo linear de extração-produção-descarte não é mais sustentável. Muitos objetos são produzidos sem considerar a sua durabilidade nem o seu fim de vida, como na obsolescência programada, que força o consumidor a comprar a nova geração de um produto.

Existem barreiras para a implementação de práticas sustentáveis, incluindo custos iniciais elevados, resistência política e falta de infraestrutura. A mudança de hábitos de consumo e comportamento é crucial, mas muitas vezes difícil de alcançar. Paul Connett defende que precisamos de responsabilidade comunitária na gestão dos resíduos e responsabilidade industrial na conceção dos produtos. Além disso, é necessária uma boa liderança política para integrar essas duas frentes. Este desafio é demasiado importante para ser deixado apenas nas mãos dos “especialistas em resíduos”; cada setor da economia deve estar envolvido. As indústrias devem focar-se no Design para a Sustentabilidade, Produção Limpa e Responsabilidade Estendida do Produtor.(3)

Práticas como hortas comunitárias, compostagem comunitária, recolha porta-a-porta dos resíduos, multas para quem não faz a correta separação de resíduos e benefícios para quem faz a correta separação são essenciais. Os supermercados devem incentivar o consumo de alimentos a granel e os consumidores devem levar as suas embalagens. O regresso à tara retornável é também uma boa prática.

Fique atento ao greenwashing, práticas de marketing enganosas que nos levam a acreditar que determinado produto, marca ou empresa é mais ecológico.

O papel dos cidadãos na sustentabilidade urbana é fundamental. Pequenas ações podem ter um grande impacto. Podemos ser ativistas no nosso dia-a-dia através de pequenas ações como recusar itens descartáveis ou fornecer sugestões construtivas em estabelecimentos comerciais. Cada um de nós tem o poder de fazer a diferença. Afinal, comprar é votar!

Acredito que a educação ambiental para todas as faixas etárias é fundamental! Só assim teremos cidadãos conscientes, participativos e proativos. Para fazer uma mudança com sucesso, é preciso querer a mudança e compreender a sua importância. Neste momento, ainda estamos a tempo de mudar de forma voluntária.

Com o avançar das alterações climáticas, essa mudança deixará de ser opcional e também gradual.

Não quero contribuir para a ecoansiedade, o estado de desassossego e medo constante em relação ao futuro do planeta. Desenvolver práticas de autocuidado e conectar-se com pessoas que partilham preocupações semelhantes pode ajudar a gerir melhor os efeitos da ecoansiedade.

O convite que quero deixar é: o que pode fazer já hoje? Como pode ter uma vida mais calma, com menos consumo, mais contacto com a natureza e menos dependência de combustíveis fósseis?

Embora a vida sustentável possa parecer uma utopia, há exemplos claros de que é possível. É necessário um esforço conjunto de governos, empresas e cidadãos para transformar essa visão em realidade, garantindo um futuro melhor para todos. Convido-o a usar a sua voz, a sua maior arma, para promover causas importantes e contagiar positivamente os outros.

Para mais informações sobre como adotar práticas mais sustentáveis no seu dia-a-dia, recomendo a leitura do meu livro “Vida Lixo Zero”.

Referências:

1) https://sdgs.un.org/goals

2) https://www.europarl.europa.eu

3) Paul Connett “Zero Waste: A Key Move towards a Sustainable Society” Milhazes, Ana. Vida Lixo Zero. Lisboa: Contraponto, 2020. Connett, Paul. Zero Waste Solution. Vermont, Chelsea Green, 2013.

* anagoslowly.com. Artigo publicado originalmente em intelcities.pt.

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