Reciclagem de plástico.

Durante décadas, a economia operou numa lógica linear: extraímos, produzimos, consumimos e descartamos. Este modelo sustentou grande parte do crescimento industrial do último século, no entanto, com várias fragilidades.

Por Nuno Matos *

Passámos a extrair mais do que a Terra consegue regenerar, a consumir para além do necessário e a descartar em volumes difíceis de justificar e até de tratar. Todos os anos, o planeta atinge cada vez mais cedo o chamado “Dia da Sobrecarga”, o momento em que esgota os recursos naturais disponíveis para esse ano, que em 2025 ocorreu a 24 de julho. Um problema que, além do seu impacte ambiental, impacta também a dimensão económica e a própria vulnerabilidade estratégica que o mundo enfrenta.

Com a crescente necessidade de mitigar as emissões de gases com efeito de estufa, tem-se verificado uma mobilização crescente de conhecimento, investimento e inovação em torno da transição de um modelo linear para uma economia circular, mais estratégica e ajustada às especificidades de cada país. Ainda assim, a resposta permanece aquém do necessário e avança a diferentes ritmos, num contexto que continua longe de uma transformação verdadeiramente alinhada e consistente.

Porém, falar de competitividade, acesso a financiamento ou credibilidade implica hoje, inevitavelmente, falar da forma como gerimos os nossos recursos. Não apenas na ótica de reduzir o desperdício ou aumentar as taxas de reciclagem, mas sobretudo na capacidade de repensar o valor dos resíduos e de redesenhar processos produtivos que os integrem num ciclo contínuo de utilização. Aquilo que durante anos foi entendido como o fim de um produto pode passar a ser encarado como ponto de reentrada no sistema produtivo.

Por exemplo, no setor energético, um resíduo pode ser reintroduzido como matéria-prima para a produção de novas fontes de abastecimento. Excedentes industriais podem ser valorizados e convertidos em combustíveis e, em alguns casos, até os resíduos resultantes da lavagem de navios-tanque encontram uma segunda vida em contexto industrial, sendo reaproveitados na produção de fuel. Por cada tonelada de resíduos que conseguimos valorizar e transformar em combustível, evitamos o seu envio para aterro e reduzimos, em simultâneo, a necessidade de recorrer a combustíveis fósseis convencionais. Ganha-se em sustentabilidade, mas também em eficiência e resiliência.

Também o enquadramento regulatório começa a acompanhar esta evolução. A nova ambição europeia em matéria de economia circular, refletida em iniciativas como o Circular Economy Act, vem trazer maior rastreabilidade, metas mais exigentes e maior responsabilidade ao longo de toda a cadeia de valor. Neste percurso, desenhado com maior clareza estratégica e visão de longo prazo, Portugal reúne todas as condições necessárias para reforçar também a sua ambição e o seu compromisso ambiental.

Na minha opinião, a circularidade deve ser pensada desde o início dos processos de licenciamento, seja ao nível do planeamento urbano ou do desenho industrial. Não apenas para melhorar a eficiência dos sistemas, mas para os tornar mais resilientes na gestão dos resíduos gerados. Isso implica infraestruturas adequadas, maior literacia ambiental e uma abordagem que envolva todos, desde governo, cidadãos e empresas. Dar condições para que todas as partes participem nesta missão coletiva tem de ser uma necessidade prática.

Talvez o maior erro seja continuar a ver a economia circular como uma agenda exclusivamente “verde”. Na realidade, estamos perante uma necessidade por transformação estrutural. Num mundo de recursos finitos e procura crescente, a capacidade de reintegrar materiais nos ciclos produtivos será cada vez mais um fator de sobrevivência. E é por este motivo que, ao celebrarmos o Dia da Terra, somos convidados a refletir sobre o papel dos resíduos numa sociedade. Mais do que o problema por resolver, estes podem ser parte da solução. Saber valorizá-los é, no fundo, saber preservar, reduzir a extração de recursos, diminuir impactos e construir um sistema mais resiliente.

Porque uma sociedade que sabe o que fazer com os seus resíduos é, inevitavelmente, uma sociedade que sabe construir o seu futuro.

* Diretor-Geral da Eco-Oil. Artigo publicado originalmente em ambientemagazine.com.

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