
Abril traz, por vezes, a memória da lembrança de como o mundo não é só a nossa rua…
A praça, naquele princípio de tarde, já tinha muita gente. Bandeiras empunhadas por novos e velhos. O som de músicas militantes que ecoava nos ares. Panos “colados” ao gradeamento que circundava a grande praça.
A cidade vivia, na altura, a atmosfera de uma campanha eleitoral presidencial. Estava-se no início da Primavera austral. Quem não soubesse, pensava que era uma das inúmeras “manif’s” que diariamente saíam para a rua. “Aqui há manifestações todos os dias, com muita ou pouca gente, mas sempre mais do que uma manifestação, e em todos os sítios”, informaram-nos quando íamos a caminho da praça.
Estava um dia lindo de sol e…não havia gente nas varandas nos prédios vizinhos. Mas havia na praça. Era lá que todas as quintas- feiras, desde há muitos anos, religiosamente, elas saíam – e saem – para a rua, para lembrar os filhos desaparecidos, vítimas de terrorismo de Estado, nos anos 70 do século passado.
De um momento para o outro, faz-se silêncio. Uma carrinha branca entra lentamente na praça. Pára junto de um toldo branco, e deixa sair uma mulher, octogenária. Com um lenço branco na cabeça, óculos escuros, o auxílio de gente nova e de um aparelho de locomoção, ela senta- se numa cadeira, e o desfile arranca, dando voltas à praça!
Era uma quinta-feira. Religiosamente, todas as quintas feiras à tarde, “As mães da Praça de Maio” regressam à Praça de Maio, em Buenos Aires (Argentina), em frente à Casa Rosada (palácio presidencial). Pelas 15 horas, ali estão presentes, de lenço branco na cabeça – um símbolo do movimento – para lembrarem os trinta mil desaparecidos durante a ditadura militar.
Para que não se esqueça!
Jesus Zing
Nota: Hebe de Bonafini (na foto tirada em Outubro de 2019, na Praça de Maio) foi co-fundadora e presidente do movimento “As Mães da Praça de Maio” até à sua morte em Novembro de 2022 aos 93 anos. Aquando do seu falecimento, o Papa Francisco, que era argentino, expressou as suas condolências numa carta dirigida a todas as Mães, que durante anos saíram à Praça de Maio, em Buenos Aires, em frente à Casa Rosada, para invocar justiça e verdade para os desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina. O Pontífice dirigiu-se-lhes, pedindo que mantivessem o compromisso da presidente e que continuassem a ser Mães da Memória. O lenço branco, símbolo do movimento, era um pano utilizado para fraldas de crianças. O lenço tinha inscrito o nome do filho desaparecido.
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