
Foi o “tripeiro” com maior sotaque… lisboeta que conheci. E era possuidor de umas barbas, que com o tempo, se tornariam, na sua imagem de marca.
O Flávio que também era Serzedello, com dois elles, pois claro, era assim: baixa estatura, uma certa barriga a caminho de proeminente, óculos com umas lentes quase a fugir para o “garrafão”, meia idade avançada… E umas barbas de impôr respeito. “Fora o resto”, ironizava.
Quando se punha em modo de trabalho, na velha secretária da redacção do jornal, colocava os…manguitos nos braços. Não era o único, diga-se a verdade. Os seus outros colegas também os usavam. No fundo, era um dos modos – havia outros – com que se distinguiam dos demais.
Como muitos anos fez o noticiário de hospitais, o Serzedello (com dois elles, é bom não esquecer) era uma espécie de “imperador”. Entrava pela velha urgência do Santo António com se fosse da casa. Uma noite pude verificar isso: acompanhou-me àquele hospital, numa situação de “última hora” e quase lhe chamaram doutor ou…colega.
Fazia pelos outros ou que não fez…por si, como bom homem e colega que era. Numa noite de verão, daquelas encaloradas, contava ele aos mais “íntimos” colegas, como, anos atrás, “traumatizou” de tal maneira o “dito cujo”, que não foi à urgência do Santo António por…decoro. Não tinha problemas em falar do “incidente”. O “traumatismo” que, pensou, poder pôr em causa a sua virilidade, seria resolvido, contava ele com um gozo amadurecido, com uma tala e o…tempo!
Era treta, claro, mas adorava ver a reacção de espanto dos colegas ignorantes. Quem fosse mais novo na idade e no jornal, mais tarde ou mais cedo, e com a confiança ganha, ia ao “baptismo” do Flávio que também era Serzedello (com dois elles). Foi o primeiro “trauma” conhecido do Flávio. O outro, mais importante e duradouro, seria o curso que nunca chegou a acabar (o de Farmácia). Todos os anos, ia matricular-se. Mas a tarefa era… difícil. “Olhava para os nomes dos professores. Foi gente que andou a estudar comigo. Conhecia-os a todos, muitos tratava por tu. E punha-me a pensar: Tenho que saber tanto ou mais do que eles. Como não sei…desisto. No ano seguinte, era o mesmo. Matriculava-me , depois via quem eram os professores e…desistia!”, confessava.
“Fui estudante de matrícula”, concluía com um sorriso triste, o Flávio que também era Serzedello (com dois elles, faz favor de não esquecer) e tratava a sua cefaleia com um analgésico comum, tirado daquela gaveta – uma espécie de farmácia ambulante ou “kit” de primeiros socorros dos tempos modernos se o preferirem.
Quando contava a situação de estudante de matrícula… vinha-lhe a tensão e o stress, dizia. Nada como abrir a miraculosa gaveta para resolver, momentaneamente, a situação!!!!
Jesus Zing
Nota: A tradição da Queima das Fitas do Porto remonta ao final da década de 40 do século passado, mas já antes havia a “Festa da Pasta”. O mesmo responsável pela primeira “Queima” em Lisboa, no ano académico de 1944-45, fundou no Porto essa celebração, em 1949-50 – Flávio Serzedello foi para o Porto para acabar o curso de Farmácia e por aí ficou por gostar da vida académica. Durante 32 anos dedicou-se mais ao jornalismo (“O Comércio do Porto”), e mais tarde à família, do que ao curso que o tinha conduzido à Invicta, segundo escreveu Letícia Amorim, no JPN da Universidade do Porto. Morreu em 2009 aos 88 anos. Foi Dux Veteranorum e, para além, de impulsionador da Queima das Fitas no Porto seria orfeonista. Aquando da sua morte foi declarado cinco dias de luto académico.
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