
Antes de falarmos da erva-das-pampas (Cortaderia selloana), proponho um pequeno exercício: pense numa espécie que conhece – talvez uma planta na sua rua, ou uma que vê na margem da estrada pela qual passa todos os dias… talvez a vespa-velutina que acompanha as suas caminhadas – e pergunte-se se ela se enquadra na definição que se segue.
Por Hélia Marchante *
Uma espécie invasora é aquela que foi transportada para fora da sua área nativa – onde ocorre em equilíbrio há milhares de anos – e que, ao chegar a um novo território, se instala, reproduz e espalha, sem a ajuda direta do ser humano, com tal sucesso que é capaz de alterar todo o equilíbrio ecológico que existe nesse novo local, acabando por causar danos ecológicos e até económicos e sociais, e por interferir no nosso estilo e modo de vida.
Quantas das espécies que lhe vêm à cabeça cabem nesta descrição?
Esta reflexão inicial ajuda-nos a perceber como certas espécies, ao serem introduzidas, mesmo sem intenção de causar problemas, podem transformar-se em verdadeiros desafios ambientais. Felizmente, a maioria das espécies introduzidas (ou seja, espécies exóticas) fica circunscrita aos pontos iniciais da definição e, por cá, não se consegue reproduzir nem espalhar sem a ajuda do ser humano. O pior, são as outras!
A erva-das-pampas (Cortaderia selloana) é uma das outras.
Originária da América do Sul, foi trazida para a Europa no século XIX, como planta ornamental, por ser apreciada pelas plumas altas, bonitas e pela aparência “exótica”. Durante anos decorou jardins, rotundas e outros espaços verdes. E não saía daí!
Inicialmente, a erva-das-pampas estava limitada aos jardins e outros espaços onde foi introduzida, pois foram apenas plantadas plantas femininas, que não tinham pólen para produzirem sementes. Mas isso mudou quando se introduziram, por acidente, plantas hermafroditas, com pólen. A sua beleza passou, então, a revelar um lado oculto: cada planta feminina tornou-se capaz de produzir centenas de milhares de sementes, minúsculas e extremamente leves, que o vento transporta a grandes distâncias.
Juntando a isto o facto de tolerar bem a seca, os solos pobres (e quase todos os outros solos!) e as perturbações humanas, rapidamente percebemos a razão pela qual a erva-das-pampas se tornou tão comum em taludes, linhas costeiras, bermas de estrada e de caminhos de ferro, meios urbanos e até em áreas naturais que deveriam estar protegidas.
O problema não é apenas estético e as consequências estendem-se a diferentes níveis.
A erva-das-pampas forma tufos densos que dificultam o crescimento da vegetação nativa e a passagem da fauna, reduzindo a diversidade e alterando o funcionamento dos ecossistemas. Onde se instala, altera a disponibilidade de luz, água e nutrientes, modificando também as condições para a fauna que depende das plantas autóctones.
Pode ocupar zonas agrícolas, aumentar custos de manutenção de infraestruturas lineares – estradas e ferrovias, por exemplo – e contribuir para a carga combustível em períodos de risco de incêndio.
As folhas cortantes e o pólen libertado pelas plantas hermafroditas (que funcionam como masculinas, já que são as dadoras de pólen) acrescenta ainda riscos para a saúde humana, estando confirmado um novo pico de alergias a seguir ao verão, associado à sua presença.
Não surpreende, por isso, que a erva-das-pampas esteja incluída na legislação nacional como espécie exótica invasora cuja propagação deve ser travada. Tal como outras dezenas de espécies, integra a Lista Nacional de Espécies Invasoras – LNEI (DL 92/2019) – e, por isso, a sua detenção, comercialização ou plantação são proibidas e puníveis com coima. É verdade que as espécies exóticas com comportamento invasor não estão (ainda) todas na LNEI, mas este reconhecimento a nível legal é importante já que limita a sua utilização!
Controlar esta planta exige persistência, mas é essencial:
- Remover manualmente plantas jovens, retirando a raiz, é eficaz e evita que regenere;
- No caso de indivíduos grandes é, muitas vezes, necessário cortar primeiro as folhas para aceder à base, para remover depois as raízes principais (ou mesmo usar uma máquina);
- O uso de herbicidas só pode ser feito por pessoas certificadas e é apenas necessário em situações particulares;
- Depois de arrancar a planta é fundamental vigiar a área durante vários anos, porque o banco de sementes que permanece no solo e as sementes que chegam da vizinhança podem continuar a produzir novas plântulas. Em muitos locais, ajudar o restauro do habitat, plantando espécies nativas adaptadas ao local, faz toda a diferença para impedir o restabelecimento da invasora.
Mas a gestão não se faz apenas no terreno: faz-se também nas escolhas e atitudes de cada um de nós. Não plantar, não comprar e não usar a erva-das-pampas, incluindo nas muito populares decorações secas, é um contributo simples e decisivo. E evita muitos espirros!
Optar por alternativas ornamentais seguras reduz a pressão sobre os ecossistemas. Participar em ações de voluntariado para arrancar plantas pequenas, plumas de plantas grandes ou ainda para registar observações em plataformas de ciência cidadã – por exemplo, no projeto invasoras.pt do iNaturalist / Biodiversity4All – aumenta a capacidade de deteção e controlo. E falar sobre o problema com amigos, vizinhos e colegas ajuda a alterar a ideia de que “é só uma planta bonita”.
A erva-das-pampas não foi introduzida nem se espalhou sozinha: beneficiou das oportunidades que criámos. Do mesmo modo, será com as nossas decisões – individuais e coletivas – que poderemos limitar o seu avanço.
Depois de conhecer estes riscos, que papel poderá assumir no seu dia-a-dia para travar esta invasora? A resposta de cada leitor conta e, juntos, podemos devolver espaço às espécies que estão realmente em equilíbrio na nossa paisagem.
Como nota final, vale a pena destacar o LIFE Coop Cortaderia, um projeto internacional dedicado ao combate à erva-das-pampas, que disponibiliza uma vasta quantidade de informação prática, materiais de sensibilização e orientações técnicas para quem lida com esta invasora.
Para as entidades que ainda não o fizeram, este projeto lança um apelo claro: aderirem à Estratégia Transnacional de luta contra Cortaderia, comprometendo-se com princípios comuns de prevenção, controlo e recuperação ecológica. Esta adesão não é apenas simbólica: reforça a cooperação entre instituições, dá coerência às ações no terreno e contribui para uma resposta mais eficaz, principalmente a nível ibérico, mas estendendo-se até França.
* Professora na Escola Superior Agrária do Politécnico de Coimbra e investigadora no CERNAS – Centro de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade. Artigo publicado no site Florestas.pt.
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