Canal Central, Aveiro.

Durante o European Digital Summit, promovido pela CIP, ecoou uma afirmação que transcende o universo tecnológico: “O talento é um recurso escasso.” Estas palavras ditas num palco de inovação, refletem um problema que também conhecemos no Turismo – uma atividade dinâmica, criativa, mas que enfrenta sérias dificuldades na retenção de talento.

Por Ana Jacinto *

O Turismo é, hoje, um dos territórios onde a tecnologia mais rapidamente se converte em experiência: desde reservas digitais à gestão energética inteligente, da personalização da oferta à integração da inteligência artificial na relação com o cliente. Cada restaurante, cada unidade de alojamento, cada pequena empresa de animação turística é, potencialmente, uma incubadora de transformação digital.

Gil Azevedo, diretor executivo da Unicorn Factory Lisbon, destacou na conferência três grandes entraves à competitividade que merecem atenção urgente. Em primeiro lugar, a escassez de investimento e a fraca cultura de risco continuam a limitar o financiamento à inovação. O “apetite pelo risco” dos investidores europeus é significativamente inferior ao dos seus congéneres norte-americanos. Sem capital disponível e sem confiança, muitas boas ideias não chegam sequer a sair do papel.

Outro obstáculo reside na ausência de um verdadeiro mercado de capitais. Startups e pequenas empresas precisam de captar fundos de forma autónoma, sem depender exclusivamente de apoios públicos. Uma economia inovadora exige canais de investimento ágeis e diversificados. Em Portugal, o peso do crédito e da burocracia continua a sufocar a ousadia. Para as microempresas, que constituem a espinha dorsal do Turismo, este cenário pode significar o encerramento prematuro.

Por fim, é essencial reforçar a educação e o espírito empreendedor. Embora mais de metade dos estudantes universitários portugueses manifeste o desejo de criar o seu próprio negócio, muitos não se sentem preparados, apoiados ou encorajados a assumir riscos. É imperativo aproximar as universidades das empresas, formando talento com mentalidade inovadora e competências práticas para transformar ideias em valor económico.

Estas fragilidades não são exclusivas do setor tecnológico — refletem-se também no Turismo. Apesar da sua importância estratégica para a economia nacional, continuamos a assistir à fuga de jovens qualificados, à escassez de profissionais especializados e à falta de confiança em negócios que já demonstraram ser essenciais ao desenvolvimento do país. É urgente levar mais inovação, mais investimento e uma cultura de risco robusta às empresas que sustentam o Turismo português.

Contudo, nenhum destes desafios será superado sem um ecossistema verdadeiramente colaborativo — e é precisamente aqui que o associativismo revela a sua força transformadora. As associações empresariais agregam, representam e capacitam. Dão escala às vozes dispersas, convertendo o receio da mudança em ação coletiva. Têm uma vantagem única: estão no terreno, conhecem os negócios, compreendem as aspirações das pessoas e os desafios do país. São pontes entre setores, plataformas de diálogo e aceleradoras de soluções — e essa função é hoje mais essencial do que nunca.

A inovação não floresce no isolamento. Precisa de comunidade, de partilha, de visão comum. E o associativismo é, no seu âmago, exatamente isso: a levedura invisível que faz o país crescer, alimentando o espírito empreendedor e fortalecendo os pilares de um Turismo mais resiliente, inclusivo e preparado para o futuro.

* Secretária-geral da AHRESP. Artigo publicado originalmente no site Publituris.pt.

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