
A Universidade de Aveiro iniciará, muito em breve, um novo ciclo de governação. Embora o meu mandato termine apenas em 2026, este é o último editorial que assino enquanto Reitor, o que confere ao momento um significado particular.
Paulo Jorge Ferreira *
Ao fim de oito anos de transformação, abre-se um período de transição que convida a olhar o caminho percorrido e a projetar o futuro com clareza e responsabilidade.
O contexto atual é particularmente exigente para o ensino superior e para o sistema científico nacional. A revisão do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) e da Lei da Ciência, e a proposta de criação da Agência de Investigação e Inovação (AI2), resultante da reestruturação da Agência Nacional de Inovação (ANI) e da integração de competências até agora exercidas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), representam uma das
mais significativas reformas do ensino superior e do sistema científico e de inovação português das últimas décadas.
A reforma parte de um diagnóstico consensual: o sistema apresenta uma elevada fragmentação e sobreposição de competências, e o foco na gestão procedimental e execução financeira em detrimento da orientação por impacto dificulta a transformação do conhecimento em inovação empresarial e crescimento económico.
A proposta do Governo foca-se numa reorganização administrativa que não é isenta de riscos. O foco na reorganização administrativa pode desviar a atenção da necessária reforma cultural; a tutela conjunta dos ministérios da Ciência e da Economia coloca dois mestres no convés do mesmo navio, aumentando o risco de conflito e indefinição estratégica; a proteção da ciência fundamental é insuficiente; e os instrumentos financeiros ao dispor da nova agência são a soma dos que já existiam na FCT e na ANI, que o diagnóstico realizado mostra serem insuficientes.
Para que esta reforma crucial atinja os seus objetivos, são necessárias alterações ao diploma: a reforma da cultura e dos processos deve preceder a reforma dos organigramas; é crucial garantir uma dotação orçamental protegida para a Ciência; a identificação dos domínios estratégicos deve ser feita pelas instituições, e não pelo Governo; a tutela da Ciência deve ser exclusiva do ministério da Ciência; e deve alargar-se o conjunto de instrumentos financeiros de forma a mobilizar eficazmente o conhecimento para a economia.
Num cenário em que o financiamento tenderá a ser mais competitivo e orientado para resultados, instituições, centros de investigação e investigadores terão de repensar estratégias, diversificar fontes de financiamento e aprofundar modelos de atuação mais ágeis e cooperativos.
É um tempo que exigirá visão, capacidade de adaptação e uma profunda consciência institucional. Só uma mudança feita com as universidades, e nunca
sem elas, poderá alcançar os resultados que todos desejamos para o futuro da ciência, da educação superior e do desenvolvimento do país.
Esta edição da Linhas coincide também com a celebração do 52.º aniversário da Universidade de Aveiro. É, por isso, tempo de celebração, mas também de renovação — de honrar a nossa história e de reafirmar o compromisso com a trajetória de desenvolvimento que construímos coletivamente.
A Universidade de Aveiro sempre se distinguiu pela forma como soube antecipar mudanças, construir alianças, inovar e afirmar-se como instituição aberta ao país e ao mundo. Hoje, essa capacidade é mais necessária do que nunca. Continuar a ser uma universidade que cria conhecimento relevante, forma profissionais preparados para novos desafios e contribui para o desenvolvimento económico, social e cultural do país implica saber ler este novo quadro político- institucional e agir de forma consequente, estratégica e colaborativa.
Nesta conjuntura desafiante, a Universidade de Aveiro reafirma a sua identidade: uma instituição que se transforma sem perder coerência, que cresce sem perder rigor e que olha o futuro com sentido de missão. É este sentido de missão que explica a forma como encaramos o futuro: com confiança, responsabilidade e esperança. A Universidade de Aveiro nasceu da ideia de ousar, de fazer diferente, de abrir caminhos novos. Essa energia fundadora continua presente — e talvez nunca tenha sido tão necessária.
É também esta ideia que percorre as páginas desta edição. Em cada artigo, em cada projeto, em cada voz da nossa comunidade, encontramos sinais de que a UA continua a reinventar-se, a inspirar e a afirmar a relevância do conhecimento que produz. Que continua a tecer conhecimento, a ligar pessoas, a construir soluções. Que continua, sobretudo, a cumprir a sua missão de servir o país através da ciência, da formação e da inovação.
Este número é, por isso, mais do que um registo do que fomos nos últimos meses — é um espelho do que continuaremos a ser: uma comunidade que aprende, cria, colabora e projeta o futuro com ambição.
* Reitor da Universidade de Aveiro. Editorial da Revista Linhas.
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