Novo edifício-sede da Junta de Freguesia de Cacia, Aveiro.

Em Portugal, a freguesia pode ser descrita como a célula viva da democracia, o espaço onde o poder político se encontra com a vida quotidiana dos cidadãos e onde os problemas mais concretos ganham uma tradução imediata.

Por Marcos Sousa *

É na freguesia que se discute a iluminação pública, o arranjo de uma rua ou o apoio às coletividades da freguesia. No entanto, apesar dessa relevância inegável, a gestão das freguesias tende, em muitos casos, a revelar fragilidades estruturais que não podem ser ignoradas. Não basta reconhecer a proximidade entre eleitos e eleitores para concluir que tudo está bem: governar uma freguesia exige hoje competências que, na maioria das vezes, não encontram correspondência na preparação de quem assume esses cargos.

É um problema que se arrasta há décadas. Grande parte dos presidentes de junta chega ao cargo por via da sua notoriedade local, mas sem possuir formação técnica em áreas essenciais à gestão de uma freguesia, como são exemplo a administração pública, as finanças locais, o planeamento urbano ou a gestão de projetos. A boa vontade é indispensável, mas já não é suficiente. A complexidade dos instrumentos financeiros disponíveis, a necessidade de cumprir regras europeias, a burocracia que envolve a contratação pública ou mesmo a articulação com as câmaras municipais requerem um conhecimento mais especializado. Quando essa preparação falta, a consequência é quase sempre a mesma: uma gestão mais improvisada do que planeada e mais reativa do que estratégica.

É verdade que a proximidade com os cidadãos constitui um trunfo, permitindo que muitas juntas de freguesia sobrevivam e até floresçam graças à dedicação e ao empenho dos seus eleitos. Mas também é verdade que essa mesma proximidade pode servir de álibi para justificar a ausência de planeamento e de visão estratégica. Num tempo em que os desafios locais se tornam mais complexos — desde a digitalização dos serviços até à resposta a problemas ambientais ou sociais —, a freguesia não pode continuar a ser pensada como um espaço de gestão amadora.

O presente exige (e também o futuro exigirá) dirigentes capazes de unir sensibilidade social com competência técnica, homens e mulheres preparados para traduzir as necessidades da comunidade em políticas concretas e sustentáveis. Não se trata de desvalorizar a dimensão humana e afetiva da política local, mas de a complementar com profissionalismo. Só assim as freguesias deixarão de ser vistas como estruturas menores e ganharão o lugar que verdadeiramente lhes pertence: o de motores de desenvolvimento comunitário e de cidadania ativa.

* Candidato à Junta de Freguesia de Carregosa (Oliveira de Azeméis).

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