
1. Para termos jovens agricultores temos de criar gosto na agricultura desde que nascem, têm de brincar com tratores, acompanhar os pais nas feiras agrícolas, no estábulo, na estufa, na cabine do trator ou nas corridas de tratores.
Por Carlos Neves *
2. Não vale a pena obrigar, até é pior, temos de preparar, propor e depois respeitar a liberdade e manter a porta aberta. A história da agricultura e até a Bíblia estão cheias de “filhos pródigos” que acabam por regressar a casa ou que primeiro dizem que não e depois vão “trabalhar para a vinha”.
3. Miguel Cavalcanti, do Agrotalento, chamou-me a atenção para os abridores de portões: “Uma das primeiras tarefas que uma criança com 4 anos, ou pouco mais, pode fazer, e a torna feliz, é abrir o portão quando é preciso passar a cerca com o trator ou o jipe, mas há gente de 40 anos que continua a ser apenas “abridor de portões”. Há pais que não delegam responsabilidades, que não partilham decisões, que fazem projetos em nome dos filhos, mas depois querem ficar para sempre a controlar tudo.
4. Também se pode casar e ser feliz com alguém de “fora” da lavoura. Há pais agricultores que sonham, teimam, pressionam e condicionam para que os filhos encontrem o parceiro para a vida dentro do setor. E “quem casa quer casa”. Um espaço só para si.
5. Antigamente tínhamos de escolher entre as vacas e os livros. Hoje temos de escolher os dois. Na família aprendemos os valores, ganhamos experiência, até podemos receber uma empresa agrícola em movimento com a força da “roda de volante” do motor, mas também são precisas as escolas agrícolas de nível secundário ou os cursos de nível superior para dar formação.
6. A empresa agrícola da família deve ser o primeiro e o melhor estágio, mas estagiar noutras empresas abre outras perspetivas para continuar ao longo da vida, com visitas de estudo, leituras, congressos e formações pontuais.
7. Somos cada vez menos jovens agricultores, mas se nos associarmos e encontrarmos já não estaremos tão sós. Participar em associações é muito importante.
8. Ouvimos muitas vezes os mais velhos lamentarem a falta de jovens na agricultura, nas associações e nas cooperativas, mas depois vemos repetir a cena do galo velho do poleiro que se sente ameaçado pelo frango que acabou de chegar. Nenhum de nós é o fim da história, somos apenas peregrinos que recebemos a terra ou as organizações como testemunho com a obrigação de passar a quem nos suceder.
9. Comprar um trator é mil vezes mais fácil do que fazer qualquer construção que exija licenças, nomeadamente ambientais. O excesso de regras está a atrasar a Europa.
10. Os prémios à primeira instalação e os apoios ao investimento são essenciais. Que haja controlo, mas que sejam simples e sejam rápidos os processos de pagamento e que haja para os jovens acompanhamento técnico e de gestão nos primeiros anos.
11. Não adianta dar apoios à instalação se não houver depois um preço justo pelos produtos agrícolas, capaz de pagar o investimento, os custos de produção, o trabalho e dar algum lucro e esperança para reinvestir.
12. Critiquem e corrijam os vossos filhos sempre que necessário, mas sejam também capazes de elogiar sempre que mereçam e não coloquem a fasquia de avaliação tão alta que nunca merecem. Não deixem para amanhã o elogio que podem dar hoje.
* Agricultor, Secretário-Geral da APROLEP – Associação dos Produtores de Leite de Portugal.
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