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"Precisamos de investimento, vontade para trabalhar há" - presidente da Associação Bacalhoeiros de Portugal
04 mar 2016, 17:08

Depois de encontrada uma sede, os Bacalhoeiros  vão editar um jornal e preparam outras atividades relacionadas com a ´faina maior´.

A Associação Bacalhoeiros de Portugal (ABP) foi formalizada a partir da comunidade virtual ´Bacalhoeiros de Portugal´ que, desde 2012, está presente no  Facebook, atingindo milhares de seguidores.  César Lourenço, ajudante de máquinas, é o presidente e um dos grandes dinamizadores.

Como surgiu a ABP ?

Acompanhávamos muitos os blogs sobre a temática do bacalhau, mas achava que faltava interação entre as pessoas. E nesse aspecto o Facebook é fundamental. Comecei em 2012 a publicar fotografias que tinha, depois apareceu alguém a postar as suas, a comunidade foi crescendo. Então decidimos dar um passo em frente, com uma equipa e uma associação para ajudar as entidades que existem no concelho de Ílhavo, como o Museu Marítimo, e não só.

Muito ´a reboque´, por assim dizer,  das memórias, do passado da pesca bacalhau, até às  vivências de hoje em dia.

Exactamente. Foram aparecendo pessoas, de grande generosidade,  a dar pedaços de si, partilhando fotografias e memórias do que passaram no mar.
No futuro, queremos trabalhar com a fundação que mantém o antigo navio hospital Gil Eanes, com quem já tivemos contactos para criar parcerias, entre outras entidades.

Surpreendeu-o a envolvência dos bacalhoeiros na comunidade virtual?

Sinceramente não esperava tanto. Sabia que muita gente gostava disto, como eu. Com outros amigos fizemo-nos homens na Gafanha da Nazaré a trabalhar durante as férias grandes, na reparação naval e outras tarefas. Os cais estavam cheios de navios. Acontecia isso em outras localidades, como a Figueira da Foz, Lisboa ou Viana do Castelo. Depois veio o declínio da pesca do bacalhao. Nós aqui somos os sobreviventes da frota longínqua portuguesa. Nas outras localidades não existe nada. Em Viana, o navio hospital Gil Eanes mantém essa memória muito forte.

Surgiram imagens inéditas nessas partilhas dos leitores pela vossa página do Facebook ?

Sim, muitas. Muita gente a digitalizar vídeos, fotografias, documentos. Tem sido uma boa experiência. Todas as semanas surgem novidades e vemos crescer as partilhas. Criou-se também uma relação de afecto entre familiares das pessoas que andaram ou andam embarcadas, famílias e amigos que procuram na página informação dos navios, etc. Não temos acesso a muita informação dessa. Os homens no mar não têm Internet. Ligamos para casa pelo telefone, para falar com as famílias, que é que nos preocupa mais claro.

Têm  marítimos da pesca longínqua em vários pontos do país ?

Temos sócios de Portimão, de Lisboa, da Gafanha da Nazaré, Viana do Castelo, Vila Chã, entre outras localidades. Alguns continuam a exercer.

“Bacalhoeiro” é forma de expressão que usam para generalizar a pesca longínqua?

Sim, hoje pescam-se outras espécies e cada vez mais. Herdámos essa designação por identificação cultural. Antigamente, os navios saíam da aqui para apanhar bacalhau e não o red fisch, por exemplo, que não tinha, na altura, valor comercial. Os tempos levaram as pescas para outros caminhos. Agora o navio para ser rentável também tem de apanhar palmeta e solha, de acordo com as quotas que lhes estão destinadas.

A associação surge com que propósito ?

A identidade própria estava conquistada. Os nossos membros do Facebook estão ligados de alguma forma a esta profissão. A associação tem vários projetos, que nos levarão da web para o terreno.
Queremos editar um jornal, o “Bacalhoeiro”, com distribuição gratuita, que sairá de dois em dois meses, com artigos muito interessantes de colaboradores nossos amigos. Fotografias,  receitas onde o bacalhau será o prato forte, também jogos para distrair. O normal nestas publicações.  Iremos procurar sempre melhorar a cada edição.
Temos uma sede. Infelizmente não nos reunimos com a frequência desejada. Estamos legalizados desde dezembro de 2014. Poucos tinham experiência de associativismo, tivemos de aprender. Temos 70 sócios neste momento. Muitas pessoas são reformadas das pescas, outras no ativo. Parece incrível, mas uma vida tão dura deixa marcas, saudades mesmo.

Os pescadores às vezes resistem, mas acabam por voltar ao mar.  O que atrai a este tipo de pesca, com vários meses ausente de casa ?

É um chamamento, entramos naquela rotina de trabalhar, comer, dormir, trabalhar. É uma vida muito, muito complicada, mas cria laços, as pessoas são unidas. Quando ficamos desanimados, dizemos que é a última vez, só que não nos conseguimos libertar. Desde logo, porque não existem alternativas em terra, com tanto desemprego. Há pessoas que passam a vida a pescar, até se reformarem.
Vamos querer ir ao encontro dos mais idosos, percorrer os lares, para já, do município de Ílhavo. Mostrar filmes antigos, recordar a pesca à linha. Encontrar esses velhos ´lobos do mar´. Nem todos acedem à Internet e Facebook. Sabemos que somos vistos, maioritariamente, por pessoas do sexo masculino entre os 30 e os 65 anos.

Têm a preocupação de registar memórias de antigos marítimos?

Sim, envolvê-las na associação. Quando desaparecerem, essas páginas da história apagam-se. Apesar de existir quem faça trabalho muito bom a esse nível, como acontece no Museu Marítimo de Ílhavo, dedicado à pesca do bacalhau, e que tem um desempenho de excelência.
Ultimamente temos tido contactos de pessoas que nos pedem ajuda para colaborar em vários trabalhos sobre as pescas.

Qual o perfil do ´bacalhoeiro´ ?

No navio em que ando já vários se reformaram e entra gente nova, a iniciar a carreira. Sabem o que lhes espera. É gente que vem, essencialmente, da Torreira e da Murtosa. São de muita confiança no trabalho, ordeiros e disponíveis. Tem de haver muito respeito.
Outras comunidades, que eram fortes na mão-de-obra de pescadores, deixaram de estar representadas.

O desgaste de uma campanha é grande ?

Eu trabalho no “Coimbra”, na casa das máquinas, é diferente, o trabalho é menos duro do que para os marinheiros. Mas quando está mau tempo, é complicado para todos. Do capitão ao moço. As máquinas não podem parar, é o coração do navio. A não ser que surja alguma avaria. Ou o reabastecimento em St. John´s, 70 dias depois...
Trabalhamos quatro horas, descansamos oito, trabalhamosoutras quatro, por aí fora. Existem três oficiais e os ajudantes. É preciso atenção a muita coisa, às temperaturas, pressões, rotações, etc.

Temos navios com 30, 40 e mais anos a pescar, embora sendo renovados. Existe um recente, o ´França Morte´.

O ´França Morte´ é um topo de gama. Em termos de eficiência energética e de pesca. É uma grande máquina. Deu-se uma grande evolução, obviamente, comparativamente aos outros que estão ainda em atividade.

Quando se partilham fotos de  navios de pesca de outros países, modernos, sentem alguma inveja ?

Um pouco, claro... Vejam-se os navios nórdicos. Têm capacidade financeira, devido aos seus recursos. As tripulações têm excelentes condições.
Tomaríamos nós consegurimos mais navios do tipo ´França Morte´.

Hoje falamos de 12 ou 13 navios apenas ?

Sim, e mesmo assim não sabemos muito bem, devido à venda de empresas a estrangeiros do armador Silva Vieira. Substituíram um navio e continuam representados em Portugal.

Não é o primeiro caso de parcerias e negócios do género.

Existem armadores internacionais de olho na nossa frota.

Buscam os navios e as empresas por causa da quotas de pesca ?

Creio que sim, especulando um bocadinho sobre o negócio. Mas preferimos que sejam empresas portuguesas e portugueses a liderar as empresas, sem colocar em causa a existência de investimento estrangeiro.

Existem navios de bandeira portuguesa que raramente passam por cá, usam entrepostos de descarga fora do País.

Existem aqui entrepostos frigoríficos bons e trabalhamos tão bem como os espanhóis. Os armadores deviam apostar mais em dinamizar os locais onde têm as sedes. Os portugueses também precisam de ter ganha pão.
Temos os mesmos armadores desde há dez anos. Surgiu a empresa do Pedro França, na cisão do grupo Miradouro. Agora a empresa que comprou os três navios do Silva Vieira. É estranho que não apareça ´sangue novo´. Deve-se, julgo, a falta de capital.
Na transformação, temos de estar atentos aos noruegueses que agora produzem bacalhau seco seguindo o método da cura tradicional portuguesa. Isto devia ter sido melhor acautelado.

Há muitos pescadores em barcos estrangeiros ?

Sim e com melhores condições salariais. Mas enfrentam muito obstáculos, desde logo na língua.

Portugal também teve uma fase de muitos tripulantes estrangeiros, viam-se peruanos, ucranianos...

Hoje em dia não se nota tanto. Os ucranianos eram muito competentes, altamente preparados, engenheiros de máquinas que vieram trabalhar em profissões que não eram as suas áreas. Foram regressando aos seus países de origem.

A pesca longínqua é perigosa ?

É uma profissão com muitos perigos, os acidentes de trabalho acontecem. Não se pode facilitar e normalmente resultam de azares.

E a rotina da pesca, a falta de descanso, muitos dias no mar...

Sim, nós estamos lá para trabalhar. Quanto mais depressa pescarmos, mais rápido será o regresso a casa, aos nossos familiares. Quando as coisas não correm bem, porque se pesca pouco, por exemplo, a pressão psicológica é brutal, para o pescador para o capitão, que é o responsável máximo.

A decadência da pesca longínqua é irreversível?

Na década de 90 virámos as costas ao mar, completamente. O futuro do Portugal europeu era o turismo. Os pescadores tinham sarna... Foi um dos nossos graves erros estratégicos.
Os espanhóis têm muito mais quotas porque defenderam os seus interesses quando era necessário, por exemplo na ´guerra da palmeta´.
Agora nós estamos sempre a perder, porque não temos poder económico. Não estou optimista, a extinção pode acontecer em poucos anos, porque os políticos não tomam decisões corretas e ainda apregoam que o futuro é a Economia do Mar. Só que as apostas ficam no papel.

A associação também quer deixar esse tipo de alertas ?

A associação quer ser mais uma voz para alertar os governos para as dificuldades da nossa frota, dos nossos pescadores, do que precisamos.
Precisamos de investimento, vontade para trabalhar há. Com a crise de trabalho, a vida do mar tornou-se mais aliciante. A escola náutica tem cursos cheios, de pilotagem, de máquinas, coloca todos os anos no mercado jovens qualificados. Os portugueses não têm medo do mar,  têm de ser aproveitados melhor. O mar tem tantas riquezas e nós com tanta miséria aqui. Os mar está na moda na boca dos políticos. Não entendemos é porque fica tudo sempre no papel e as promessas não passam de palavras vãs. Não só a pesca como a marinha mercante. Nesta parte, hoje não temos absolutamente nada. O mar é a alavanca para tirar o País da crise.

Crédito de foto: Site Roda do Leme.

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