Indústria nacional deverá apostar na progressão da cadeia de valor, reforçando as marcas próprias e investindo na inovação, diz Paulo Monteiro Rodrigues, secretário-geral da ABIMOTA.
Revista Portugal Global*
Nos últimos anos o sector das bicicletas em Portugal aumentou a sua representatividade no comércio internacional português (0,44 por cento do total). Pode fazer um pequeno balanço da evolução das exportações do sector nos últimos anos?
Embora também sintam a crise, as exportações do sector procuram manter as posições conquistadas nos últimos anos, em particular nos mercados do Centro da Europa. Há uma quebra sensível no mercado espanhol, mas há sinais ligeiros de recuperação nos restantes mercados europeus, em particular no sector da mobilidade, em contrapartida com alguma estabilização do mercado do lazer e do desporto.
Verifica-se simultaneamente um crescimento das importações no sector, provenientes, nomeadamente, da China. Quer comentar esta situação, tendo em conta que até há pouco tempo Espanha era o principal fornecedor da indústria portuguesa do sector? De que forma é que essas importações se reflectem no produto final e, consequentemente, nas exportações?
As importações de componentes reflectem a realidade da indústria. Quer nos segmentos mais baixos quer nos componentes de menor valor acrescentado é muito difícil – quase impossível, diria – concorrer com os produtores asiáticos. Existem mesmo situações em que alguns componentes já só se fabricam nesses países, pelo que é impossível não incorporar algumas dessas importações. E isso afecta o valor acrescentado nos produtos finais que exportamos.
Como poderão as empresas portuguesas de componentes e acessórios competir com a China?
A competição com a China é muito difícil sobretudo nos segmentos mais baixos e de menor qualidade. Há claramente situações de dumping. Aliás, isso é confirmado pela recente renovação, por mais cinco anos, das medidas antidumping em vigor. Mas desta vez a indústria europeia foi mais longe. Conseguiu no processo de anti-dumping introduzir as preocupações com o dumping social, ambiental e politico evidente, as preocupações dos consumidores com a qualidade, o ambiente e o emprego. As empresas europeias que competem cumprindo, e muito bem, regras ambientais, condições de trabalho bem regulamentadas e com transparência de mercado nos apoios, são confrontadas com situações de concorrência desleal. A abertura da Europa, que visava construir um grande mercado
interno, levou a uma permissividade em relação a alguns países terceiros, com reflexos que só agora estamos a sentir em pleno com a actual crise.
Como poderá aumentar a sua representatividade no mercado europeu?
A indústria portuguesa viu a sua representatividade ligeiramente diminuída com o último alargamento da União Europeia, embora ainda sejamos uns dos principais produtores. A nossa quota terá baixado de cerca de 12 por cento para 8,5 a 9 por cento no mercado a 27. E também porque sendo um mercado maduro, são poucos os nichos que apresentam algum crescimento significativo.
A diversificação dos destinos das exportações tem sido apontada como uma das formas de combater a estagnação registada nos mercados europeus, principais clientes da indústria nacional do sector.
Qual a sua opinião sobre esta matéria?
A diversificação é possível, e há empresas que vão conseguindo explorar outros mercados. Mas isso implica uma subida na cadeia de valor, ou seja, em mercados de nicho específicos, conseguindo um posicionamento em segmentos de maior valor acrescentado como os emergentes na mobilidade urbana, nomeadamente as bicicletas com apoio eléctrico.
Em termos globais, que apreciação faz da actual situação da indústria portuguesa de duas rodas? Qual o estado da arte do sector?
O sector começou por ser reconhecido pelas competências tácitas, associadas aos processos de produção de componentes metálicos e montagem e existência de uma mão-de-obra especializada relativamente mais barata, em termos europeus. A indústria necessita de continuar o caminho iniciado já por algumas empresas de progressão na cadeia de valor, com o reforço das marcas próprias e o investimento em maior inovação. A montante, com maior inovação nos produtos e processos produtivos. A jusante, com melhoria no marketing, imagem e distribuição dos produtos.
Quais as perspectivas para a indústria nacional no curto e médio prazo?
As perspectivas são positivas porque, apesar da crise, a quebra não foi muito significativa e há empresas que até cresceram. Os custos da energia e as preocupações ambientais e a procura de hábitos mais saudáveis devem contribuir para o reforço da utilização da bicicleta. Por seu lado, o sector das bicicletas eléctricas vem alargar a sua utilização em cidades de orografia mais irregular e também permitir uma utilização mais intensiva em populações seniores. No médio prazo é importante o reforço da capacidade de desenvolvimento de novos produtos, integração de novos materiais e melhoria no design das bicicletas e componentes.
Falando em nichos de mercado, verifica-se na Europa um aumento das vendas das bicicletas eléctricas. Como está esse mercado em Portugal?
O mercado das bicicletas eléctricas está a dar os primeiros passos em Portugal, embora noutros países, como refere, já tenha conquistado uma significativa quota de mercado. Na Holanda, por exemplo, aproxima-se dos 15 por cento. Pelo valor médio de cada unidade é um mercado que pode, nos próximos anos, assumir uma expressão muito significativa, quer nas vendas mas sobretudo nas exportações portuguesas.
Já existem empresas portuguesas a fornecer algumas componentes específicas para este tipo de bicicleta, mas é nosso entendimento que é possível um desenvolvimento significativo deste subsector.
Como se posiciona a indústria portuguesa de duas rodas na indústria europeia? Como poderá aumentar a sua representatividade no mercado europeu?
A indústria portuguesa viu a sua representatividade ligeiramente diminuída com o último alargamento da União Europeia, embora ainda sejamos uns dos principais produtores.
A nossa quota terá baixado de cerca de 12 por cento para 8,5 a 9 por cento no mercado a 27. E também porque sendo
um mercado maduro, são poucos os nichos que apresentam algum crescimento significativo.
ABIMOTA tem laboratório único na Península Ibérica
A indústria nacional de bicicletas é representada em termos associativos pela ABIMOTA, sedeada em Águeda. É lá que se encontra o LEA, um moderno laboratório de ensaios que é único na Península Ibérica e que além de testar bicicletas de produção nacional, alargou já os seus serviços a Espanha e França. De acordo com a ABIMOTA - Associação Nacional das Indústrias de Duas Rodas, Ferragens, Mobiliário e Afins, o LEA é um dos laboratórios europeus melhor equipados na área de ensaios de bicicletas e seus componentes, dando resposta às solicitações dos clientes mais exigentes. O LEA - Laboratório de Ensaios da ABIMOTA surgiu em 1994, fruto do empenho da associação em dotar o sector de uma estrutura de desenvolvimento, sendo hoje reconhecido pelo seu papel impulsionador para o sector e para a economia, ao facultar meios de modernização e desenvolvimento à indústria mãe e ao proporcionar serviços de qualidade à indústria em geral.
A ABIMOTA foi fundada em 1976 e tem competências, entre outras, nas áreas da formação profissional; da normalização (é um Organismo de Normalização Sectorial -ONS - Veículos de Duas Rodas); e nos serviços que presta aos associados como o apoio jurídico e o acompanhamento de projectos.
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